O casamento do céu e do inferno – William Blake

O casamento do céu e do inferno – William Blake


Este é um livro de visões extraordinárias, mais ainda se pensarmos Blake escreve em pleno século XVII e princípios do século XVIII -1757 a 1820 -, em pleno iluminismo. Kant viveu entre 1724 e 1804. Blake foi muito além do iluminismo e da crença na educação e na verdade do progresso que a ciência trazia. Ele viu em pleno iluminismo que as questões eram mais complexas e mais fundas, o homem era vários homens e era muito discutível o que se entendia por progresso. Soube apoderar-se de antecessores à altura, porque não me admira ver aqui Boehme e Milton?
Aliás a defesa da energia é com certeza uma influencia de Boehme “(…) A energia é a única vida (…), A energia é o eterno deleite” (…).
É curioso como os espíritos se procuram. Como ensinou Blake “(…) nunca a águia empregou tão mal o seu tempo como quando quis aprender com o corvo (…)”.
Blake aprendeu com outras águias, não perdeu tempo.
Este livro inaugura a famosa voz do diabo e dos provérbios do inferno desenvolvendo-se numa lógica ostensivamente provocadora.
Vou falar aqui apenas daquelas visões de Blake que mais trovejaram em mim. O livro tem muitas mais, evidentemente.
Uma das primeiras visões tem a ver com a lógica da construção da humanidade por opostos, a visão do corpo e da alma, do pensamento e das emoções como entidades integradas e não separadas. Blake louva o corpo como parte da alma humana : “(…) aquilo a que se chama corpo é a parte da alma discernida pelos cinco sentidos (…)”.
Temos a visão da defesa da energia, do desejo e da imaginação como produtores de conhecimento, a emoção como fogo que arde por dentro da razão, “ (…) ele suplica ao Pai que lhe envie o consolador ou Desejo para que a razão possa ter ideias e criar (…)”.
A sua crítica à religião e à forma como esta denigre a alegria, o desejo, a beleza, e tudo o que é genuinamente humano e belo.
A visão da existência de seres que nasceram para ser inimigos, “(…) Uma porção do ser é o prolífico, a outra o devorador (…) Estas duas classes de homens acham-se sempre sobre a terra, & devem ser inimigas; quem quer que as tente reconciliar procura destruir a existência (…)”.
A sua defesa do excesso e da exuberância.
Podia falar de muitas outras visões, mas estas chegam para admirarmos o que escreve e a forma como escreve os seus aforismos brilhantes.
Um livro para sorver, pensar e repensar – admirar.
Por último, uma palavra para as extraordinárias, robustas, grandiosas imagens que as suas gravuras contêm. Imagens dotadas d euma beleza, de uma exuberância e de uma força indescritíveis.
Blake não granjeou grande fama pelos seus trabalhos e viveu vida rente à pobreza.

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

Há livros que nos surgem como paisagens. Livros que nos surgem como cidades. Talvez haja cidades que são a nossa paisagem de dentro cá fora e livros que são pequenos espaços dessa cidade de nós que um dia encontraremos e nos retrata. Do mesmo modo existem filmes que são como pequenos espaços de uma paisagem que faz parte de uma cidade, Esses filmes passam-se lá, entre uma praça e uma livraria, entre uma rua antiga e uma catedral.

O desejo de ler este livro de Auden nasceu da visualização de um filme – 4 casamentos e um funeral- em que é lido um dos seus belíssimos poemas de amor – Blues fúnebres.

Este é um livro só sobre o amor, tudo o que diz que não é sobre o amor é sobre o amor também, e di-lo de uma forma tal que se vê como o amor também está lá. Mas não diz a verdade acerca do amor, diz das verdades acerca do amor.

E a introdução um tanto obscura com que comecei esta breve sinopse não foi casual, é que o amor de Auden convoca paisagens, cidades, filmes, e escreve de um modo que interliga tudo- e é na praça que a língua satisfaz o seu desejo.

Quem também está sempre presente é o tempo, inexorável, seja quando a felicidade o faz parar, seja quando os anos passam inexoráveis a correr como coelhos. A verdade do amor que Auden descobre para nós como se destapasse um véu, é algo de urgente que tem de acontecer já e que ocorre num tempo e espaço específicos rodeado de tragédia e a qualquer momento, fina folha que brilha, pássaro brilhante que extasia qual Alcanto, se esvai, nasce para morrer instantes depois. A maior verdade do amor para Auden parece ser a vivência do momento do amor com toda a paixão.

É como se existissem dois mundos, um mundo à espera do amor, morto, pobre e um mundo onde o amor de repente surge e faz brilhar esse mundo ainda há pouco morto. Por isso o amor tanto não está em lado nenhum, o mundo inteiro está sem o amor, como de repente o mundo brilha apaixonado de amor e então o mundo é aquele instante naquele espaço e a única obrigação é amar esse amor em toda a sua totalidade. Mais cedo que tarde esse amor desaparecerá e a tristeza, a angustia, o abandono e a morte choverão sobre o mundo daquele que amou. Mas esse não deve ser o pensamento do amante porque até o sofrimento é bem vindo quando se amou. Aliás, o que salva o sofrimento foi ter amado, embora também seja por tanto ter amado tanto que o sofrimento surge depois tão esmagadoramente hiperbólico como um prédio desabando em cima da coluna vertebral do viver, como em funeral blues.

Poesias levemente irónicas e tristes algumas, onde o autor agarra a vida através do vidro do amor sem descurar todas as provações que estão antes e depois desse mesmo amor. Belíssimo livro de imagens insólitas, quase surrealistas dotando os seus poemas breves de uma enorme frescura, versatilidade e sensibilidade. Um livro a ler e a reler.

O poema não parou

O poema não parou

o mundo fez-se instante de dor 

o poema não parou

uma mulher ganhou a sorte grande

o poema não parou

o homem chorou

o filho morto

o poema não parou

aquele jovem perdeu

os sonhos

o poema não parou

um homem resgatou

o mar à morte

o poema não parou

os sonhos apodreceram

num homem

o poema não parou

vozes assaltaram

uma casa de penhores

o poema não parou

alguém se impôs

sem medo à morte

o poema não parou

uma alegria inundou

de luz um corpo 

o poema não parou

um homem perdeu o eu

o poema não parou

uma mulher se vendeu

o poema não parou

uma mulher caminhou

para lá do que a fazia forte

o poema não parou

aquela mulher

morreu na estrada

o poema não parou

uns dentes pensaram

o impensável

o poema não parou

um doente escarrou

saúde 

o poema não parou

um sol clonou o calor

o poema não parou

uma bomba de neutrões

dançou twist

o poema não parou

uma miúda emudeceu

de tristeza

o poema não parou

um pesadelo cumpriu

pena de prisão

o poema não parou

alguém sucedeu

a si próprio na morte

o poema não parou

alguém viu sonhos

voarem na noite

o poema não parou

um homem empreendeu

a construção de si

o poema não parou

ou terá parado

e ninguém deu por isso?