O casamento do céu e do inferno – William Blake

O casamento do céu e do inferno – William Blake


Este é um livro de visões extraordinárias, mais ainda se pensarmos Blake escreve em pleno século XVII e princípios do século XVIII -1757 a 1820 -, em pleno iluminismo. Kant viveu entre 1724 e 1804. Blake foi muito além do iluminismo e da crença na educação e na verdade do progresso que a ciência trazia. Ele viu em pleno iluminismo que as questões eram mais complexas e mais fundas, o homem era vários homens e era muito discutível o que se entendia por progresso. Soube apoderar-se de antecessores à altura, porque não me admira ver aqui Boehme e Milton?
Aliás a defesa da energia é com certeza uma influencia de Boehme “(…) A energia é a única vida (…), A energia é o eterno deleite” (…).
É curioso como os espíritos se procuram. Como ensinou Blake “(…) nunca a águia empregou tão mal o seu tempo como quando quis aprender com o corvo (…)”.
Blake aprendeu com outras águias, não perdeu tempo.
Este livro inaugura a famosa voz do diabo e dos provérbios do inferno desenvolvendo-se numa lógica ostensivamente provocadora.
Vou falar aqui apenas daquelas visões de Blake que mais trovejaram em mim. O livro tem muitas mais, evidentemente.
Uma das primeiras visões tem a ver com a lógica da construção da humanidade por opostos, a visão do corpo e da alma, do pensamento e das emoções como entidades integradas e não separadas. Blake louva o corpo como parte da alma humana : “(…) aquilo a que se chama corpo é a parte da alma discernida pelos cinco sentidos (…)”.
Temos a visão da defesa da energia, do desejo e da imaginação como produtores de conhecimento, a emoção como fogo que arde por dentro da razão, “ (…) ele suplica ao Pai que lhe envie o consolador ou Desejo para que a razão possa ter ideias e criar (…)”.
A sua crítica à religião e à forma como esta denigre a alegria, o desejo, a beleza, e tudo o que é genuinamente humano e belo.
A visão da existência de seres que nasceram para ser inimigos, “(…) Uma porção do ser é o prolífico, a outra o devorador (…) Estas duas classes de homens acham-se sempre sobre a terra, & devem ser inimigas; quem quer que as tente reconciliar procura destruir a existência (…)”.
A sua defesa do excesso e da exuberância.
Podia falar de muitas outras visões, mas estas chegam para admirarmos o que escreve e a forma como escreve os seus aforismos brilhantes.
Um livro para sorver, pensar e repensar – admirar.
Por último, uma palavra para as extraordinárias, robustas, grandiosas imagens que as suas gravuras contêm. Imagens dotadas d euma beleza, de uma exuberância e de uma força indescritíveis.
Blake não granjeou grande fama pelos seus trabalhos e viveu vida rente à pobreza.

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

Há livros que nos surgem como paisagens. Livros que nos surgem como cidades. Talvez haja cidades que são a nossa paisagem de dentro cá fora e livros que são pequenos espaços dessa cidade de nós que um dia encontraremos e nos retrata. Do mesmo modo existem filmes que são como pequenos espaços de uma paisagem que faz parte de uma cidade, Esses filmes passam-se lá, entre uma praça e uma livraria, entre uma rua antiga e uma catedral.

O desejo de ler este livro de Auden nasceu da visualização de um filme – 4 casamentos e um funeral- em que é lido um dos seus belíssimos poemas de amor – Blues fúnebres.

Este é um livro só sobre o amor, tudo o que diz que não é sobre o amor é sobre o amor também, e di-lo de uma forma tal que se vê como o amor também está lá. Mas não diz a verdade acerca do amor, diz das verdades acerca do amor.

E a introdução um tanto obscura com que comecei esta breve sinopse não foi casual, é que o amor de Auden convoca paisagens, cidades, filmes, e escreve de um modo que interliga tudo- e é na praça que a língua satisfaz o seu desejo.

Quem também está sempre presente é o tempo, inexorável, seja quando a felicidade o faz parar, seja quando os anos passam inexoráveis a correr como coelhos. A verdade do amor que Auden descobre para nós como se destapasse um véu, é algo de urgente que tem de acontecer já e que ocorre num tempo e espaço específicos rodeado de tragédia e a qualquer momento, fina folha que brilha, pássaro brilhante que extasia qual Alcanto, se esvai, nasce para morrer instantes depois. A maior verdade do amor para Auden parece ser a vivência do momento do amor com toda a paixão.

É como se existissem dois mundos, um mundo à espera do amor, morto, pobre e um mundo onde o amor de repente surge e faz brilhar esse mundo ainda há pouco morto. Por isso o amor tanto não está em lado nenhum, o mundo inteiro está sem o amor, como de repente o mundo brilha apaixonado de amor e então o mundo é aquele instante naquele espaço e a única obrigação é amar esse amor em toda a sua totalidade. Mais cedo que tarde esse amor desaparecerá e a tristeza, a angustia, o abandono e a morte choverão sobre o mundo daquele que amou. Mas esse não deve ser o pensamento do amante porque até o sofrimento é bem vindo quando se amou. Aliás, o que salva o sofrimento foi ter amado, embora também seja por tanto ter amado tanto que o sofrimento surge depois tão esmagadoramente hiperbólico como um prédio desabando em cima da coluna vertebral do viver, como em funeral blues.

Poesias levemente irónicas e tristes algumas, onde o autor agarra a vida através do vidro do amor sem descurar todas as provações que estão antes e depois desse mesmo amor. Belíssimo livro de imagens insólitas, quase surrealistas dotando os seus poemas breves de uma enorme frescura, versatilidade e sensibilidade. Um livro a ler e a reler.

Poetas Russos – Manuel de Seabra

Poetas Russos – Manuel de Seabra


Pertencem a esta antologia poetas do início do século XX, do tempo da revolução russa. O simbolismo de Blok, o acmeismo de Ana Akhmátova, até ao futurismo de Maiakovski. Não figuram neste livro Khlebnikov com a poesia transmental e o movimento zaúm, nem Mandelstam. Figuram dois poetas já um pouco posteriores: Okudkava e Ievtuchenko.
De entre todos os excelentes poetas que Manuel de Seabra convocou saliento dois muito diferentes que aprecio enormemente.
Marina Tsvetaeva estava do lado do exército branco aquando da revolução de 1917. Viveu uma vida trágica devido à perseguição que lhe foi movida pelo regime estalinista, foi obrigada a exilar-se, voltou à Rússia, viu morrer de fome uma filha e o marido ser fuzilado. Perseguida pelo regime e sem conseguir trabalho acabou por se suicidar. Perpassa pela sua poesia esta existência angustiada, amargurada, mas a sua poesia é muito mais do que a sua biografia. Desde logo Marina olhava-se de forma distanciada, daí a ironia que se descobre na sua poesia, e depois, era uma mulher de grande personalidade que recusou fazer de si o que quiseram fazer-lhe e mesmo nas condições mais penosas foi capaz de viver, amar, escrever e sonhar. Não conseguiram fosse menos humana e menos rica, não se deixou amputar, foi uma mulher livre. Não é que não esteja bem patente e vincada na sua poesia a perseguição que lhe moveram, mas Marina fez levedar tudo esse material poético e introduziu a sua condição de mulher na poesia escrevendo poemas de amor apaixonado na sua voz original, em versos lapidares, como se vê no primeiro poema de Marina nesta antologia, breve, apenas duas estrofes, onde se patenteia a vida de alguém que nasceu rica e nobre e viveu na pobreza, – não pretende nada, não tem criada e não precisa de comer – como quem diz, de essencial não me tirastes nada, e paradoxalmente assegura ao amado: “sou o teu sétimo céu”. Ela que perdeu tudo, que é nada, é a paixão, o sétimo dia, a recompensa do amado. E continua como se vivesse numa dimensão mais elevada, “aí na terra”, o mundo deu-lhe a vida e a morte, tudo e nada, o que os homens mais amam e o que mais temem: “dinheiro e mós penduradas ao pescoço”. Mas por mais que lhe tirem continuará a ser grande, até pelo orgulho com que enfrenta as vicissitudes, e por ser quem é, Psique, aquela que pela fidelidade do seu amor venceu todos os perigos, corpo de ave e cabeça humana, ser de uma dimensão mais elevada para quem as vicissitudes só servem para mostrar a grandeza. A tragédia é parte necessária da grandeza, ela continua a ser o sétimo céu, a recompensa máxima; psique.
Maiakovsky, ao contrário de Marina abraçou desde o início a revolução. A revolução que esperava. Ele declamou os seus versos para o povo nas praças de muitas cidades, como identifica precisamente no poema desta antologia. Estava na vida e na revolução como artista, mesmo quando se colocava ao serviço da revolução. Nada diminuiria a sua arte, era com ela e através dela que era o que era. Maiakovski foi sempre um homem livre que se pôs ao serviço daquilo que bem entendeu, mas sempre livre. Quando lhe diziam os seus poemas eram demasiado elevados para o povo, ele respondia que era preciso elevar o povo e não diminuir a sua poesia.
Não deixa de ser significativo que não tenha sido a revolução a conduzi-lo ao suicídio, mas o amor ou a perda do amor. Maiakovski não se deixou reduzir, viveu intensamente, foi um habitante da poesia, e morreu porque amou demais, ou talvez porque o amor fosse já insuficiente.
Maiakovsky tem nesta antologia o poema: “a nuvem de calças”. É um poema extenso e é possível observar-se nele grande parte das suas características.
A força, a arrogância, a provocação com que Maiakovsky se atira ao mundo. “Vou atiçar com o coração sangrando/ rirei até fartar, mordaz, e desfaçado”.
A força da sua juventude, de sua diferença “não tenho uma cã na alma”, o espírito que o anima é outro. A juventude -22 anos- é uma das razões da sua força. Grandeza, diferença- fala do alto da sua juventude, a juventude é um bem, um ganho, uma virtude. Ele é todo lábios (…).
O que canta?
A força, a luta, a revolução, o povo, o pecado, os perdedores. A urgência de construir um mundo novo através da acção, das mãos, da vida real, de toda a gente unida e forte e lutadora, grita contra a beleza que se esconde em casa, é mais bela a fealdade da rua, “há amor nas almas dos marcados das bexigas”.
O poeta da vida, da revolução, das perdas reais, “um prego no meu sapato é mais terrível que a imaginação de Goethe” e “melhor que orações são artérias e músculos”.
Canta a fé em si e na revolução e no povo. O poeta é arauto e cumpre a sua função pelo povo e pela revolução, ama o povo, mesmo que este não o compreenda e não corresponda.
É preciso fazer a revolução sem contemplações, sem ternura, sem perdão. Grita: “Esmagai-os/Nós, os fortes, de passos largos”.
O poema vai entrelaçando histórias umas nas outras num rimo avassalador, interpolando as diferentes situações com um ritmo alucinante, e desfiando imagens arrevesadas, surrealistas, provocadoras, inovadoras, “o rosto bexigoso da chuva”.
Depois da história do seu amor com Maria, o sujeito poético revolta-se contra um tipo de “poesia de lágrimas e flores”.
Este livro permite um primeiro olhar sobre a grande poesia russa. É um interessante aperitivo para autores que, em si mesmos, são um faustoso almoço.

Louise Gluck- A Íris Selvagem

Louise Gluck- A Íris Selvagem

Soam neste livro várias e diferentes vozes e mensagens, quase se pode dizer mensagens autorais na medida em que a mensagem personifica, a fala é fala de alguém, a fala faz-se ser, ao falar-se. Esta personificação das mensagens perpassa todo o livro e é inaugurada pelo próprio título – íris selvagem remete para a “mensageira”, “a que leva mensagens pela palavra”, a que anuncia, símbolo da ligação entre o céu e a terra. Mas também de ligação entre vivos e mortos, efémero e eternidade, homem e natureza e Deus, mensagens de um todo, de uma universalidade do humano que fala, que se fala, como se mensagens da humanidade, o que é dito tem a ver com o pulsar do que é de todos na humanidade, universalidade.

Observamos umas vezes a voz de Deus tecendo comentários sobre a sua criatura, outras vezes a voz da criatura, ora clamando por Deus, ora observando o seu silêncio, ora identificando-se com a própria natureza. Há uma ligação entre mundos, o mundo dos mortos, do nada, da eternidade, de Deus, e uma escada permitindo a passagem de uns mundos para os outros. Por vezes ouve-se uma voz que parece de um ser intermédio -um anjo? – que observa os humanos de um ponto de vista não divino, mas superior ao humano. Em outros poemas a morte é uma passagem a partir da qual o nosso ser desabrocha em toda a sua totalidade, unindo-se ao universo, sendo universo. Há um contacto com o universo, com o sofrimento – “capaz de sentir a seiva borbulhante” -, uma profunda ligação do indivíduo com a terra, o universo, um destino comum.

Um livro diferente, que tem de ser lido com grande acuidade e paciência, para se ir descobrindo as suas diferentes vozes naquele marulhar ascético, seres surgindo do nada, falando e desaparecendo como vagas do mar, vozes ascéticas, depuradas, despojadas, quase frias, universais.

Hamlet

Hamlet

Hamlet abre para um mundo de possibilidades. Talvez todos os caracteres sejam dialécticos, mas essa dialéctica está aqui mais visível que nunca. Não só a personagem Hamlet, mas também outras personagens. Que pensar de Polónio?, a sua pretensa sabedoria que vem da experiencia mostra-nos apenas que cada um de nós escolhe do mundo as ideias que se melhor se adequam a si e faz disso a verdade. Mas são apenas ideias que têm de ser pensadas a cada instante, o que a personagem não faz, tornando-se um idiota sábio que tem a certeza absoluta de tudo. Parece achar que nunca falha e não acerta em nada. Considera-se tão sério e tem um comportamento manipulador e imoral, inventa boatos, é prepotente, grosseiro, não respeita a privacidade de ninguém, manipula como mais lhe convém tudo e todos. Até o pouco que aprendeu na vida o atrapalha.
Mas o seu único crime é ser quem é, e quem pode fugir ao que é?
E que dizer de Ofélia?
É das personagens mais interessantes da peça juntamente com Hamlet. Antes de enlouquecer nunca ouvimos Ofélia. E a razão é a mais simples de todas as razões, Ofélia não existe. Não sabemos quem é Ofélia pela simples razão que não é ninguém. Ou melhor, é o que os seres masculinos da sua vida quiserem. Obedece ao pai, obedece ao irmão, e mostra-lhes sempre o mesmo carinho, a mesma simpatia. O que pensa?, não sabemos. Diz o que se espera dela e faz o que lhe dizem para fazer. Não tem uma existência própria. Dá-nos uma pequena ideia de até onde podem chegar o abuso do poder, a manipulação e a prepotência, é um títere nas mãos de um pai manipulador.
Por estranho que pareça, ou não, Ofélia apresenta a sua própria voz quando enlouquece. Só aí, por entre as palavras desconexas nos apercebemos da sua intranquilidade e angústia. Aí temos entre incoerências a voz daquele ser que nunca desabrochou completamente. A sua loucura terá algo a ver com a necessidade de se construir por suas próprias mãos agora que o pai morreu?, agora que ele morreu quem a dota de existência?, ficou sem saber quem era?, talvez não tenha aguentado olhar para o abismo de si, talvez não tenha aceitado ser tão diferente do ser a que o pai e a sociedade em geral a haviam determinado. Será isso?
E o interessante é que as vozes voltam a vesti-la na morte, a donzela recatada torna-se mais uma vez o que esperam dela, agora pela voz de uma mulher, a rainha, que a integra numa espécie de imaginário feminino, um ser angelical, símbolo da donzela virginal, incorporando-se na natureza. Mais uma vez o imaginário social a vestir a mulher. Só que agora já não através da voz masculina, mas da voz feminina, que aparentemente parece acreditar neste tipo de imaginário que os homens inventaram para as mulheres. O resultado continua a ser uma falsa imagem da mulher e um colete de forças a vestir aquela que morreu, que nem morta se livra de ser vestida pelas vozes dos outros.
A peça mostra uma espécie de dois mundos antagónicos, noite e dia, invisível e visível, profundo e superficial. Um mundo puro, perfeito. E o mundo da noite, profundo, inconsciente em que domina o caos, os desejos inconfessáveis e o ego demoníaco.
Para todos é como se só existisse o mundo visível e perfeito, mas o outro mundo escondido vai formando papos na pele do visível mostrando que algo se passa no fundo do ser. Um desses papos profundos a dar sinal da existência dessa profundidade escondida são os festins que o rei dá e em que se bebe até cair. Orgias que, diz Hamlet, lhes valem o desprezo das outras nações. É esse mundo fundo, mau, caótico e indócil a vir às margens do visível reclamar para si o ser humano.
Já tudo se disse sobre Hamlet.
Hamlet que não encontra em si firmeza para cometer os actos que se propõe. Hamlet que motivado pelos ciúmes é injusto e grosseiro com Ofélia. E, depois, claro, a grande questão – ser ou não ser?
É uma questão que perpassa toda a peça, lutar contra o destino ou ser indiferente às setas que nos tentam abater?
E dentro desta questão, no miolo desta questão, uma outra. Será que lutar com o destino ou sermos indiferentes é uma escolha nossa, ou inclinamo-nos para uma dessas hipóteses por personalidade, quase como um destino que não podemos travar porque tem a ver com o que nós somos. Será que foi isso que aconteceu com Hamlet?
Será daí que vem a sua hesitação e revolta?
Era a hora de destruir sem contemplações e encontrou-se, não com o homem de acção que urgia ser, mas com o pensador cheio de escrúpulos e dúvidas a questionar-se em vez de agir?
É uma possibilidade, e se for assim, ai vemos o pensador pensar mil vezes antes de agir, ter todos os escrúpulos, não querer punir sem ter a certeza e depois, quando age, já tarde e más horas, só o faz como um tresloucado, como um carro desgovernado levando à sua frente inocentes e culpados sem qualquer hesitação, atropelando os seus próprios princípios.
É uma peça onde cada um é o que é e não sai desse círculo. E ao ser cada um o que é, é mais do que parece porque todos os caracteres humanos são coisas diversas e até contraditórias. Mostram uma coisa, são outra e pensam ainda outra. Para além disso, ainda há o inconsciente que ninguém verdadeiramente conhece e que influencia o nosso comportamento. Esta peça é sobre tudo isto como já muitos disseram.
Duas asserções, ainda, em termos da escrita. O facto de ser uma peça que vai directa ao essencial, ao que é. E depois as mudanças de linguagem, tanto das várias personagens, mas também da mesma personagem em diferentes situações, seja a linguagem da loucura de Ofélia, mas também a linguagem mais grosseira de Polónio, e do próprio Hamlet com Ofélia.
Muitas interpretações se podem dar a este texto imortal, mas o melhor será certamente lê-lo e relê-lo.

Harold Bloom – O Cânone Ocidental

Harold Bloom – O Cânone Ocidental

Se me fosse pedida uma frase síntese sobre este livro diria, não uma, mas duas. Um livro com qualidades. Um livro a que dá gosto voltar. Esta segunda, como é óbvio, está inevitavelmente ligada à primeira. São muitas as suas qualidades, desde logo a liberdade de exposição, o ataque ao que não aprecia de forma séria e rotunda, a ideia da desigualdade de valor entre escritores, a defesa do fenómeno do estranhamento como forma de se sentir que se está perante um grande obra, a sua perspectiva sobre a influência de Shakespeare, a enorme erudição e o contacto profundo com as obras. Estas qualidades de raiz perpassam como seiva por todo o livro e são a alegria por onde o pensamento respira.
Outro dos seus conceitos interessantes é o de ansiedade da influência, conceito complexo que não vou definir porque seria tarefa inglória e arriscava-me a dizer disparates – posso dizer que é um conceito central deste autor, é muitíssimo abrangente e apresenta várias faces, desde a mais óbvia – a grandeza de um autor que se estende pelo tempo adentro em relação aos autores seguintes que se formam à sombra desse autor e que, inevitavelmente, necessitam para se construir de distanciamento. Mas esta é apenas uma das dimensões do conceito ansiedade de influência que me parece tem uma profundidade intelectual e até emocional que ultrapassa muito isto que disse. De qualquer modo, creio que é impossível os grandes escritores não se medirem com os grandes escritores anteriores, até para se refazerem de outro modo, o que nunca esconde a influência desses outros autores, mesmo quando os escritores mais recentes fazem desabrochar de outra forma essas influências. Enfim, qualquer autor tem que travar as suas lutas para se construir como autor.
Bloom analisa vinte seis autores absolutamente canónicos, segundo ele, da literatura de sempre.
Eu não li o livro de seguida, há uns meses atrás tinha lido uma parte, vi-me obrigado a parar, e agora voltei e aproveitei, não só para ler o que me faltava, como para reler alguns autores, e voltei a sentir o mesmo agrado pela erudição, fluência da escrita e análises apresentadas.
E aqui faz sentido a segunda frase com que iniciei a minha resenha, não é um livro fácil, nem em quantidade nem em qualidade, pelo que ler e reler é agradável, estimulante e torna-se quase necessário, diria indispensável.
Depois, claro, são quarenta anos de leituras, de pensamento, de analise e de escrita de Bloom sobre estes autores e suas obras. Este livro grande é pequeno para a qualidade dos autores escolhidos e para o que poderia ainda ser dito, e isso também faz deste um grande livro.
Quanto à sua análise, é coerente com as suas ideias, explicita e relaciona autores de uma forma genial, é profundo e enriquecedor, no entanto, creio que talvez exista, por vezes, uma certa redução da obra dos autores de modo a poder acertar a sua teoria de ansiedade de influência influencia com a obra estudada. Por exemplo, diz de Pessoa que “Pessoa (…) é Whitman renascido, mas um Whitman que dá nomes separados a «o meu eu», «o eu verdadeiro» ou «eu, eu mesmo», e «a minha alma», e escreve maravilhosos livros de poemas para os três, assim como um volume à parte com o nome de Walt Whitman.”
Não sei se Pessoa será só isto. Bloom também não diz que é só isto, mas analisa-o fortemente deste modo. Eu diria que há mais Pessoa em Pessoa. Talvez até haja mais Pessoa que alguma vez em algum Whitman sob certos aspectos, mas isso é, evidentemente, discutível.
É interessante conhecer as perspectivas e análises deste autor e até confrontar com outras perspectivas e com as nossas leituras sobre as obras em questão. Vale a pena. Um grande livro para ler, reler e confrontar.

Terceiro volume Proust – O Lado de Guermantes I

Terceiro volume Proust – O Lado de Guermantes I

Neste volume, como em todos de em busca do tempo perdido a história é sucinta, descomunais são as vivências, rememorações, descrições e análises do narrador.
Este terceiro volume foca as vivências do mundo da aristocracia, e como sempre, a primeira grande qualidade dessa narração é a forma como nos transporta para um mundo vivo, em efervescência, psicologicamente eficaz e sociologicamente mordaz, faz-nos entrar num mundo em toda a sua complexidade e subtilezas, mostrando-nos o carácter de que cada personagem, cambiantes, mudanças. Vivos. As peripécias sucedem-se com Robert de Saint-Loup, a Marquesa de Guermantes, Madame de Villeparisis e tantas outras personagens com quem o narrador vai convivendo, ou simplesmente encontrando nos elegantes salões parisienses que também frequenta. O narrador tece considerações sobre os mais variados assuntos: a abrangência e mudanças do carácter do ser humano, a relação amorosa, a consciência que cada um tem de si, do seu papel na sociedade, no caso de alguns aristocratas da sua grandeza e falta que fazem ao mundo, a arte da pintura, o valor da literatura, é toda uma realidade que se vai desenrolando como um tapete perante os nossos olhos, só que é um tapete de tal riqueza que ficamos literalmente com os olhos em bico, aquelas personagens passam-nos realmente diante dos olhos nas sua soberba, grandeza, mesquinhez, hipocrisia, comoção, tristeza, alegria, fingimento. Após ler mais este volume fiquei com a sensação que a realidade havia alargado, que já não poderia olhar para determinadas realidades e vê-las da mesma maneira, tinham-se tornado mais complexas, tinham agora dimensões em que até hoje eu nunca havia pensado, e isto mesmo olhando para mim e para os outros. Como se usássemos uns óculos que nos permitissem ver o interior das coisas todas do mundo a ser, em vez da superfície aparentemente estática. Um livro a ler mais do que uma vez.

Duzentos Poemas – Emily Dickinson

Duzentos Poemas – Emily Dickinson


Logo a um primeiro olhar causa estranheza a poesia de Emily, por causa, claro, dos famosos travessões, das maiúsculas que dependem do valor da palavra e não da gramática, do uso do plural quando se esperava singular, do uso do artigo indefinido quando se esperava definido. Mas este assombro não vem só em termos visuais; em termos de conteúdo há, para mim, mais assombros ainda, os temas – Imortalidade, Fama, Vida, Eternidade, Amor, Deus Estrelas, Morte, Estrelas, Vazio, Nada, Claridade, Molde, Poesia, etc, são o mundo ao contrário, o essencial torna-se diário, quotidiano, tema à flor do papel, à flor da palavra, penetra a palavra, transforma-se num quase-conceito (metonímia?), mundo em carne viva, rochas em carne viva, rios em carne viva, mundo interior em carne viva, céu em carne viva, Deus em carne viva. Só essências e as ligações entre tudo, ditas com uma singularidade de elipse, em que se diz só com o mínimo, o essencial tornou-se quotidiano e o quotidiano desapareceu para lá dos céus.
Emily mostra-nos um mundo, faz-nos entrar no seu quarto, na sua cabeça, no seu espírito, na sua casa. A fonte é uma enorme energia interior que se diz arrastando consigo, como uma maremoto, formas ditas elegantes do escrever e regras gramaticais para assim melhor expor coração, alma, corpo, pensar, cérebro, e a forma que encontrou de o fazer – sublime, quanto mais não seja por originalidade e beleza-.
Isto é o que me surge em termos gerais; após uma leitura destes 200 poemas, mas muito mais se pode esmiuçar, desde logo, a sensação de que os seus quase-conceitos – Afeição, Silêncio, Leilão, Mente Humana, Erva, etc…- são lava que lhe vem das entranhas que petrifica ao contactar o ar cá fora.
Publicar- é o Leilão
Da Mente Humana –
Justificada – a Pobreza
Para coisa tão vil
Emily esgrime com os seus quase-conceitos como quem atira, ou empurra pedregulhos para o sítio certo, é com pedregulhos – quase conceitos- que faz a sua poesia e, através de elipses, estas rochas tomam o espaço, são fortes, enigmáticas, magnéticas, estão ali porque era ali que tinham que estar, mas claro só o sabemos depois de Emily as fazer estar. Antes não diríamos semelhante coisa, nem os seus contemporâneos disseram, pelo contrário, tentaram inclusivamente, corrigir-lhe a gramática.
Emily joga com os seus quase-conceitos, daí a sua poesia pareça escrita sem esforço, como se jogasse um jogo de pedras em que fizesse cair certeira no sítio certo cada palavra, escrita orgulhosa e humilde ao mesmo tempo, há orgulho em ser-se assim tão diferente, mas só sendo muito humilde se o pode ser. Isto é, tem que se estar atento a si e obedecer-se onde tudo diz não se deve obedecer, e é preciso orgulho e força para manter o que para si não pode escrever-se de outro modo, mesmo que ao mundo inteiro pareça impossível, pobre, errado e até imbecil.
Emily é como aqueles guerreiros que fazem explodir as pontes atrás de si, cada travessão tem muitas vezes essa explicação, ela passou a ponte e conscientemente fê-la explodir atrás de si, salta concisa, compacta, sólida para a ponte seguinte e faz explodir a ponte seguinte também, faz cair o fio condutor que nos permitiria reconhecer os seus passos, não nos deixa migalhinha nenhuma a que nos agarrarmos, nada que permita perceber por onde andou o seu pensamento, impiedosamente, obriga-nos a lê-la e a relê-la se a quisermos conhecer, e muitas vezes obriga-nos a ficar à porta a roer os dedos e a bater em vão, não deixa fase visível, poesia de rochas escarpadas viradas ao céu, como todos os grandes poetas não faz cedências, a sua poesia simplesmente é. E por isso até é estranha a ideia de cedência, se apenas diz à sua maneira, ceder seria o quê?, escrever à maneira dos outros?, isso não é ceder, é não ser.
Assim, escreve uma poesia que não explica, nem se explica, poesia por clarões, casa, universo.

Kierkegaard – o ponto de vista

Kierkegaard – o ponto de vista


Um texto luminoso e labiríntico constituído por múltiplas entradas em que Kierkegaard se diverte a construir-se e reconstruir-se, de acordo com o que desejou ser e fazer. Pegou no que escreveu e reconstruiu esse passado em termos de autor religioso e autor estético, consolidou as suas intuições como se fossem certezas. Não há, talvez, melhor maneira de olhar o passado. Neste jogo entram, claro, os vários heterónimos a cargo dos quais colocou a parte estética e ele próprio, como autor religioso, e como capa dos seus procedimentos a ironia, socrática, a maiêutica, a falsa humildade como modo de chegar ao outro e trazê-lo, de algum modo, ao seu mundo.
É difícil dizer o que mais admiro em Kierkegaard, mas há aspectos que são lapidares, a autenticidade do seu pensamento, quase escandalosa de tão profunda e séria, como quando identifica ao mundo da cristandade o que lhe falta para ser cristão; a forma como, de acordo com a sua teoria anti-sistémica, relaciona as preocupações estéticas, teológicas, filosóficas com acontecimentos da sua própria vida, tornando-se um exemplo do indivíduo que tão valorosamente defendeu; o analista, o raciocinador, o psicólogo nato que vê por dentro pessoas, situações, a si próprio; e depois, como se fosse pouco, o estilo impecável, sedutor, rico, imaginativo, irónico, engenhoso, imagens riquíssimas, pertinentes, ora extravagantes, ora deliciosas. Kierkegaard, o quase ignorado Kerkegaard, satirizado pelo jornal corsário, considera-se um génio, evidentemente o que se considera é o que menos interessa, importante é o que escreve, de qualquer modo, só posso concordar – o homem era um génio.
Este é um livro que se lê com relativa facilidade, e que nos aproxima do autor e da sua obra que exige algum conhecimento prévio. Este ponto de vista talvez seja a obra que nos pode dar o conhecimento prévio necessário para se ler a dialéctica vertiginosa que Kierkegaard impõe em outros livros, como desespero humano e temor e tremor, por exemplo.

Proust – À sombra das jovens em flor

Proust – À sombra das jovens em flor

O narrador deste livro é uma enciclopédia de ideias, juízos, intuições. Todo o livro é escrito, não só sobre a égide da memória, como o próprio autor afirma, mas também sob a égide da intuição criativa. Em cada linha há uma análise, um aparte, um dito de uma profundidade e de uma verdade quase inimagináveis, analista da vida em sociedade, parece ver cada pormenor ao microscópio, e com uma balança em cada mão, rindo do modo como cada um valoriza a sua pessoa, a sua palavra, o seu estatuto, observa a diferença entre o estatuto real e o estatuto imaginado de cada um, a forma como cada um se integra na sua classe social, conhece o que sente um jovem, uma jovem, analisa a forma como cada um se comporta na vida em sociedade, o modo como o coração muda, insensivelmente, e logo a seguir muda de agulhas e discorre sobre literatura. É difícil perceber se são mais admiráveis os pensamentos em si, ou a forma como estes engastam no texto com uma naturalidade de tapeçaria, numa complexa lógica de rede em que nada é deixado ao acaso, como se uma locomotiva passasse a pente fino toda a alma humana; uma estrutura que é tudo menos natural, tão difícil de criar como os próprios pensamentos que dela fazem parte. É notável a fluidez das frases que se alongam como videiras e trepam aos ombros de outras que por sua vez se alongam e dão continuidade a novos pensamentos. Uma escrita tão elegante que parece natural, mas não é, ninguém escreve daquela forma sem um trabalho meticuloso de artífice por trás, mas a verdade é que em nada se nota esse trabalho, as frases caem no papel como as tolhas de certas mesas em certas casas.
As personagens e as situações narradas são extremamente verosímeis e simples, quase naturais e tudo se vai encadeando para nos mostrar mil realidades diferentes da realidade, como quem forja as cores estilhaçadas de um caleidoscópio uma a uma e por fim une o caleidoscópio a partir de uma gigantesca memória criativa, desproporcionada, que abrange em si todas as pluralidades.