Erich Fromm – O Medo à Liberdade

Erich Fromm – O Medo à Liberdade

Este livro ilumina uma grande fatia da realidade dos nossos tempos, esta frase talvez soe um pouco estranha mas, parafraseando Wittgenstein no seu prólogo, creio que aqueles que já tiveram esta ideia compreenderão o que digo.
Fromm faz situar muito bem o que existe no real através dos conceitos psicológicos com que explica as realidades, nomeadamente, a luta entre a liberdade de ser e enfrentar o destino que se quer para si, e a submissão a uma ordem mais geral que apoie, ajude e nos permita ser sem duvidar e sem nada perguntar, nem escolher por si próprio. Deixamos de existir para aparentemente sermos mais.
Este livro chama a atenção para o facto da maioria de nós ter optado pela submissão para ganhar. Sim, submeto-me a uma verdade pré existente, interiorizo toda uma forma de pensar, viver e ser, lado a lado com milhares ou milhões e, em contrapartida, todos juntos vamos impor a nossa visão ao mundo, vamos vencer. Perco-me para vencer, daí o uso do poder ser a pedra de toque, bem como a ausência de ego.
Os fascismos como algo que já vem de nós e só espera pelo sistema social certo que o faça desabrochar, o sistema social, ou o partido que inflame corações pequeno burgueses, aparentemente sem futuro, dando-lhes uma razão para lutar.
Não sei se a análise que Fromm faz de Hitler, aliás exatamente dentro desta lógica de submissão em algo maior como a natureza, e o poder e a vitória, em interação com um sistema económico capitalista pequeno-burguês, é completamente abrangente.
É que, apesar de tudo, Hitler e os seus apaniguados mais chegados inovaram no mal, apontarem ao mal puro, ao puro ódio. Parece haver mais qualquer coisa, falta saber se é loucura ou autonomia no mal; ou as duas coisas.
Sinceramente, concordando que realmente as questões psicológicas estão sempre presentes e têm impacto na realidade social, não podemos esquecer que existem variáveis da parte social, variáveis que aprofundam ainda mais determinadas características psicológicas dos indivíduos e tendem a transformar os seres humanos em meios. Ajudam-nos a ser as roldanas de algo maior que eles que os desmembra pela alma, pelo espírito. Fromm não as aceita, mas não significa não existam.
Está muito interessante a análise do homem da idade média, ainda sem liberdade abstrata e a análise sobre o início da construção do homem moderno como o conhecemos hoje, com a Reforma.
Para ler, mesmo até por quem já saiba que é para ganhar mais consciência e também porque, uma vez por outra, é bom sentir não se está só.

Se Isto é um homem – Primo Levi

Se Isto é um homem – Primo Levi

Este livro descreve o conjunto de normas perfeitamente irreais, absurdas e ilógicas que fizeram parte da vida quotidiana dos presos em Auschwitz, no Lager. Estas regras e todos os procedimentos  que os prisioneiros realizam com o objectivo de sobreviver são verdadeiramente animalescas. E, no entanto, todos procedem como se tudo aquilo fosse normal.

O livro é tanto mais desolador e acabrunhante quanto é contido, não há nenhuma lamentação excessiva, apenas descrição e reflexão sobre o trabalho abjecto, as condições onde dormem, comem, e o que aquilo os torna, enfim, o que é o homem?

A descrição asfixiante da estupidez em forma de vida de todos os dias.

Como foi que nos transformamos nisto, e porquê?

Livro seco, directo, escrito olhos nos olhos. Sem ódio.

Só isso.

E não é pouco.

Após lermos um livro com este impacto emocional, é comum repetirmos que é preciso contar para não voltar a acontecer.

Não creio que contar por si só chegue para alguma coisa. O importante era verificarmos até que ponto não existe algo semelhante, num grau muito menor, claro, mas com a mesma lógica, em algumas realidades quotidianas. Isto é, regras arbitrárias, relações sem empatia, desprezo e/ou indiferença pelo outro. Mais, a possibilidade que damos aos outros de ditarem regras completamente absurdas e arbitrárias. Estas lógicas de dominação do outro podem criar uma aceitação do inaceitável que um dia pode calhar-nos mal.

Não chega contar. Não chega ouvir. É preciso exigir um quotidiano onde as sementes de dominação se vejam impedidas de germinar.

Este é um livro sucinto e, no entanto, diz o que desse mundo urge dizer.

Para ler e tomar em devida conta na sua passagem para um real quotidiano cada vez mais bovinamente racionalizado.

Sylvia Plath – Campânula de vidro

Sylvia Plath – Campânula de vidro

Este romance apresenta-se em duas partes. A primeira descreve a vida da jovem Esther que, com 19 anos, obteve, pelo excelente desempenho académico e para aperfeiçoar, ainda mais, o seu talento literário, uma bolsa universitária e um estágio numa revista em Nova York.
Nesta primeira parte, a jovem espera uma revelação, algo que lhe mostre que o mundo é algo mais em termos espirituais, relacionais, afectivos – enfim, algo mais -, mas a revelação não surge. E, usufruindo dessa bolsa, vivendo nesse suposto mundo mais rico, Sílvia é obrigada a constatar o óbvio, que o mundo que a rodeia é pouco, de um lado formalismos idiotas, rançosos e até racistas, e do outro bebedeiras e indivíduos sem valor. A protagonista faz um esforço para se integrar, mas a conclusão a que parece chegar, dê as voltas que dê, é que aquilo que o mundo é em termos espirituais, ou intelectuais, é muito menos do que precisa para sobreviver.
Na segunda parte do romance vemos, através de vários flash backs, a jovem perdida, incapaz de superar a sua angústia, vendo o mundo, a vida, os outros, a si própria através desse estado de desesperança, sem vontade. Acaba internada em um hospital psiquiátrico.
As primeiras qualidades que me apraz lembrar quanto ao estilo deste romance são, sem dúvida, a capacidade de Silvía Plath de escrever apelando a todos os sentidos: visão, audição, cheiros, tacto; a extrema fluidez da sua escrita; a capacidade de transportar o leitor para o que se passa dentro da sua cabeça, torpor, alheamento sufocante, visão sobre os outros, compondo retratos muito sugestivos, vivos.
Quanto à característica mais presente – para mim -, não é propriamente a doença, mas a inadequação da protagonista ao mundo.
Não é que ela negue desde o início o que vê, ou se isole, não, a protagonista quer mesmo adaptar-se, contentar-se com o mundo, até acompanha as outras jovens, participa e acha o mundo está certo, mas precisaria de mais alguma coisa, espera do mundo outras dimensões que não passem por compras, bebedeiras e flirts.
Não existe autenticidade, nenhum desejo de algo mais do que a vida mais prosaica, nada. Aquilo que vê à sua frente os outros serem é o que há. Não existe mais nada. E essa constatação íntima abre uma ferida dentro dela por onde a loucura se espalha. O que está em causa não é alguém que não aceita os padrões colectivos. O que está em causa é que a protagonista espera mais dos homens, das mulheres, da vida, do colectivo, do mundo. Por isso ela é feminista sem defender o feminismo, simplesmente pela forma como pensa e vive pensando por si, analisando e criticando o mundo de forma independente.
O que desde sempre a perturba é a vida insípida, é não ter tempo para si, para pensar, para ser, para escrever. O que a perturba é vir a viver um casamento hipócrita, falso, é ficar encafuada a uma pobreza intelectual obscena.
A protagonista simplesmente não se adequa porque quer mais, quer diferente, quer algo autêntico e o mundo não tem isso para lhe dar.
Essa impossibilidade de crescimento abre uma ferida enorme dentro da personagem uma sensação de nada valer a pena, de beco sem saída e até de apatia, que se abeira da loucura de um modo extremamente racional, porque não é por não ver como as coisas são que enlouquece, mas por ver bem demais como elas são.
As experiências que tem em termos de relações humanas são deprimentemente pobres, e ela sente isso no corpo, analisa-o e conclui que não quer viver naquela mediocridade. A questão é essa, e talvez seja por isso que o romance acaba com a personagem a não pôr de lado voltar a enlouquecer. É que aquilo que a deprime de forma tão fortíssima é real e ela sabe que a vida pode voltar a empobrecer e ela voltar a deprimir. Daí não poder dizer com certeza que não voltará a sentir-se desse modo a que para facilitar se chama loucura. Aliás, sabendo que Sylvia se matou, como se matou, e como foi capaz ao mesmo tempo de proteger os filhos, não se pode deixar de pensar que Sylvia, tal como a personagem, foi ferozmente lúcida na sua loucura.
Uma das certezas com que fico deste livro é que não é por a protagonista ser diferente – no sentido de estar contra os valores do seu mundo – que enlouquece. Não. A protagonista é o sítio onde a loucura tem lugar apesar dela. Em muitos excertos do livro a personagem descreve de modo minucioso, asséptico, o que lhe está a acontecer, a sua apatia, a sua falta de vontade, o seu desinteresse perante tudo e todos, a tristeza que se vai avolumando dentro dela, deixando-a como que dentro de uma campânula.
A narradora descreve de forma muito rica e viva essa vivência do mergulho em todos os sentidos na loucura ao mostrar-nos o seu alheamento, falta de vontade por tudo, incapacidade de se alimentar, indiferença em relação a tudo e a todos. A personagem olha para si como para um pedaço de carne à distância a ver-se ser, como se não lhe dissesse respeito quem esse ser é.
O romance não é panfletário. A protagonista põe tudo em causa porque se limita a ser ela própria, o que ela é já coloca em causa toda uma sociedade.
Nudez mental completa, sem cedências, nem subterfúgios, construindo uma dignidade literária à força de um estilo narrativo incisivo, penetrante, lúcido.
Excelente livro.

Marina Tsvetáeva – Depois da Rússia

Marina Tsvetáeva – Depois da Rússia

Muito se pode dizer deste livro de poesia – Depois da Rússia -, e sobre a poesia de Marina, mas vou discorrer apenas sobre três ou quatro aspectos que me chamaram mais a atenção nesta poesia.

Um primeiro tem a ver com o uso simbólico que faz dos mitos, nomeadamente gregos, e da Bíblia.

por exemplo, o mito de Eros e Psique, sendo Psique aquela que continua leal, à procura pelo mundo inteiro daquele que ama, sofrendo tormentos e perdas sem fim pelo seu amor.

Metáfora que, infelizmente, de algum modo se adequa extrordinariamente bem a Marina, sofrimento, dor, fuga, e mais sofrimento, mais dor e perdas constantes até ao dia em que vai ao encontro da morte.

O mito de Euridice e Orfeu em que Marina entende Euridice como aquela que cortou os elos com o mundo, aquela que foi tomada pela imortalidade e já não quer voltar atrás. Diz a Orfeu que não venha por si, pois ela é agora um ser apenas espírito, tudo acabou.

Há vários poemas de Marina em que o mundo é visto como uma queda, viver é perder-se, nascer é cair, e morrer será como Eurídice voltar a ser grande, pertencer ao espírito do universo.

Outro mito é o de Lilith, a mulher insubmissa, a primeira mulher, a rebelde, a que não aceita a superioridade masculina, a mulher divina, independente.
O mito de Fedra e Hipólito representa para Marina a construção da moral imoral da paixão, uma moral que vive das forças da paixão numa lógica que não é a do homem comum, como se a paixão fizesse ascender a um patamar superior os seres que nela fossem capazes de viver. Como se fosse um mundo regido por forças que o homem e a mulher comuns desconhecem.

Dentro desta lógica, ligada ainda aos mitos, vemos surgir em muitos poemas a mulher oráculo, a mulher perseguida pelos seus poderes, a mulher que contrapõe os seus valores e o seu poder aos poderes e aos valores masculinos. A mulher insubmissa que ousa ser e amar, sibila.

Nem o Estalinismo conseguiu destruir esta forma de Marina ser e ver a mulher.

Há ainda outros mitos, Tarpeia, a mulher que traiu os romanos, e Sulamita, a bela e formosa mulher do cântico dos cânticos, independente, leal e independente. Há ainda Aquiles e Helena entre outros.

Estes mitos são o tijolo da alvenaria do poema de Marina, visão de sentimentos e comportamentos de personagens que encarna, nem sempre de acordo com a visão tradicional.

Marina, torce os mitos, para os fazer viver de acordo com os seus temas primordiais.

As imagens de Marina são um animal certeiro, fresco, que esvoaça e se move no papel. Imagens cruas, violentas, sugestivas, sangrentas, apaixonadas vorazes: “Dentes em cascalho – em migalhas”, forjadas na própria carne, pedaços de alma e sangue.
É um pouco atrevido dizer isto, mas sinto em alguns versos semelhanças com Dickinson.

Por exemplo nestes versos:

“Vertida do balde-

A manhã. A cal do caiador.

Na crónica da costela,

O céu- que clareira!”

Temos travessões, suspensões, elipses.

Outro dos temas recorrentes tem a ver com o tempo. Perseguida pelo estalinismo até à exaustão fala desse tempo, melhor, mais do que desse tempo concreto, fala de um tempo de que esse tempo é exemplo, de um tempo “do mal ardente”, de um tempo “de ser órfão do mundo”. Marina sabe que aquele tempo já existiu e voltará a existir. Um tempo terrível que lhe minou a vida e que ela desassombradamente assumiu como o seu tempo, vivendo nele da forma mais livre que foi capaz. Esse tempo instalado na sua Rússia, para onde voltou por ser a sua casa, e que acabou por lhe roubar tudo o que era possível roubar, ao ponto de uma das suas filhas – Irina- morrer de fome; e acabou por a conduzir ao suicídio. É esse tempo maldito que Marina caracteriza incessantemente.
Marina exprime-se na sua poesia como poeta de rara grandeza, sem falsas modéstias, artífice que conhece “todas as escadas divinas”.

Uma poesia de rara altitude, voz poderosa que se desdobra em múltiplas vozes de forma desassombrada e intrépida, apaixonada.

Não posso deixar de salientar a paixão que coloca na escrita, como se as palavras fossem estacas que lhe houvessem atravessado o coração, e ela as cravasse imorredoiras e sangrando no papel, desfolhando-as como pétalas, enquanto morre.

O casamento do céu e do inferno – William Blake

O casamento do céu e do inferno – William Blake


Este é um livro de visões extraordinárias, mais ainda se pensarmos Blake escreve em pleno século XVII e princípios do século XVIII -1757 a 1820 -, em pleno iluminismo. Kant viveu entre 1724 e 1804. Blake foi muito além do iluminismo e da crença na educação e na verdade do progresso que a ciência trazia. Ele viu em pleno iluminismo que as questões eram mais complexas e mais fundas, o homem era vários homens e era muito discutível o que se entendia por progresso. Soube apoderar-se de antecessores à altura, porque não me admira ver aqui Boehme e Milton?
Aliás a defesa da energia é com certeza uma influencia de Boehme “(…) A energia é a única vida (…), A energia é o eterno deleite” (…).
É curioso como os espíritos se procuram. Como ensinou Blake “(…) nunca a águia empregou tão mal o seu tempo como quando quis aprender com o corvo (…)”.
Blake aprendeu com outras águias, não perdeu tempo.
Este livro inaugura a famosa voz do diabo e dos provérbios do inferno desenvolvendo-se numa lógica ostensivamente provocadora.
Vou falar aqui apenas daquelas visões de Blake que mais trovejaram em mim. O livro tem muitas mais, evidentemente.
Uma das primeiras visões tem a ver com a lógica da construção da humanidade por opostos, a visão do corpo e da alma, do pensamento e das emoções como entidades integradas e não separadas. Blake louva o corpo como parte da alma humana : “(…) aquilo a que se chama corpo é a parte da alma discernida pelos cinco sentidos (…)”.
Temos a visão da defesa da energia, do desejo e da imaginação como produtores de conhecimento, a emoção como fogo que arde por dentro da razão, “ (…) ele suplica ao Pai que lhe envie o consolador ou Desejo para que a razão possa ter ideias e criar (…)”.
A sua crítica à religião e à forma como esta denigre a alegria, o desejo, a beleza, e tudo o que é genuinamente humano e belo.
A visão da existência de seres que nasceram para ser inimigos, “(…) Uma porção do ser é o prolífico, a outra o devorador (…) Estas duas classes de homens acham-se sempre sobre a terra, & devem ser inimigas; quem quer que as tente reconciliar procura destruir a existência (…)”.
A sua defesa do excesso e da exuberância.
Podia falar de muitas outras visões, mas estas chegam para admirarmos o que escreve e a forma como escreve os seus aforismos brilhantes.
Um livro para sorver, pensar e repensar – admirar.
Por último, uma palavra para as extraordinárias, robustas, grandiosas imagens que as suas gravuras contêm. Imagens dotadas d euma beleza, de uma exuberância e de uma força indescritíveis.
Blake não granjeou grande fama pelos seus trabalhos e viveu vida rente à pobreza.

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

W.H. Auden- Diz-me a verdade acerca do amor

Há livros que nos surgem como paisagens. Livros que nos surgem como cidades. Talvez haja cidades que são a nossa paisagem de dentro cá fora e livros que são pequenos espaços dessa cidade de nós que um dia encontraremos e nos retrata. Do mesmo modo existem filmes que são como pequenos espaços de uma paisagem que faz parte de uma cidade, Esses filmes passam-se lá, entre uma praça e uma livraria, entre uma rua antiga e uma catedral.

O desejo de ler este livro de Auden nasceu da visualização de um filme – 4 casamentos e um funeral- em que é lido um dos seus belíssimos poemas de amor – Blues fúnebres.

Este é um livro só sobre o amor, tudo o que diz que não é sobre o amor é sobre o amor também, e di-lo de uma forma tal que se vê como o amor também está lá. Mas não diz a verdade acerca do amor, diz das verdades acerca do amor.

E a introdução um tanto obscura com que comecei esta breve sinopse não foi casual, é que o amor de Auden convoca paisagens, cidades, filmes, e escreve de um modo que interliga tudo- e é na praça que a língua satisfaz o seu desejo.

Quem também está sempre presente é o tempo, inexorável, seja quando a felicidade o faz parar, seja quando os anos passam inexoráveis a correr como coelhos. A verdade do amor que Auden descobre para nós como se destapasse um véu, é algo de urgente que tem de acontecer já e que ocorre num tempo e espaço específicos rodeado de tragédia e a qualquer momento, fina folha que brilha, pássaro brilhante que extasia qual Alcanto, se esvai, nasce para morrer instantes depois. A maior verdade do amor para Auden parece ser a vivência do momento do amor com toda a paixão.

É como se existissem dois mundos, um mundo à espera do amor, morto, pobre e um mundo onde o amor de repente surge e faz brilhar esse mundo ainda há pouco morto. Por isso o amor tanto não está em lado nenhum, o mundo inteiro está sem o amor, como de repente o mundo brilha apaixonado de amor e então o mundo é aquele instante naquele espaço e a única obrigação é amar esse amor em toda a sua totalidade. Mais cedo que tarde esse amor desaparecerá e a tristeza, a angustia, o abandono e a morte choverão sobre o mundo daquele que amou. Mas esse não deve ser o pensamento do amante porque até o sofrimento é bem vindo quando se amou. Aliás, o que salva o sofrimento foi ter amado, embora também seja por tanto ter amado tanto que o sofrimento surge depois tão esmagadoramente hiperbólico como um prédio desabando em cima da coluna vertebral do viver, como em funeral blues.

Poesias levemente irónicas e tristes algumas, onde o autor agarra a vida através do vidro do amor sem descurar todas as provações que estão antes e depois desse mesmo amor. Belíssimo livro de imagens insólitas, quase surrealistas dotando os seus poemas breves de uma enorme frescura, versatilidade e sensibilidade. Um livro a ler e a reler.

Poetas Russos – Manuel de Seabra

Poetas Russos – Manuel de Seabra


Pertencem a esta antologia poetas do início do século XX, do tempo da revolução russa. O simbolismo de Blok, o acmeismo de Ana Akhmátova, até ao futurismo de Maiakovski. Não figuram neste livro Khlebnikov com a poesia transmental e o movimento zaúm, nem Mandelstam. Figuram dois poetas já um pouco posteriores: Okudkava e Ievtuchenko.
De entre todos os excelentes poetas que Manuel de Seabra convocou saliento dois muito diferentes que aprecio enormemente.
Marina Tsvetaeva estava do lado do exército branco aquando da revolução de 1917. Viveu uma vida trágica devido à perseguição que lhe foi movida pelo regime estalinista, foi obrigada a exilar-se, voltou à Rússia, viu morrer de fome uma filha e o marido ser fuzilado. Perseguida pelo regime e sem conseguir trabalho acabou por se suicidar. Perpassa pela sua poesia esta existência angustiada, amargurada, mas a sua poesia é muito mais do que a sua biografia. Desde logo Marina olhava-se de forma distanciada, daí a ironia que se descobre na sua poesia, e depois, era uma mulher de grande personalidade que recusou fazer de si o que quiseram fazer-lhe e mesmo nas condições mais penosas foi capaz de viver, amar, escrever e sonhar. Não conseguiram fosse menos humana e menos rica, não se deixou amputar, foi uma mulher livre. Não é que não esteja bem patente e vincada na sua poesia a perseguição que lhe moveram, mas Marina fez levedar tudo esse material poético e introduziu a sua condição de mulher na poesia escrevendo poemas de amor apaixonado na sua voz original, em versos lapidares, como se vê no primeiro poema de Marina nesta antologia, breve, apenas duas estrofes, onde se patenteia a vida de alguém que nasceu rica e nobre e viveu na pobreza, – não pretende nada, não tem criada e não precisa de comer – como quem diz, de essencial não me tirastes nada, e paradoxalmente assegura ao amado: “sou o teu sétimo céu”. Ela que perdeu tudo, que é nada, é a paixão, o sétimo dia, a recompensa do amado. E continua como se vivesse numa dimensão mais elevada, “aí na terra”, o mundo deu-lhe a vida e a morte, tudo e nada, o que os homens mais amam e o que mais temem: “dinheiro e mós penduradas ao pescoço”. Mas por mais que lhe tirem continuará a ser grande, até pelo orgulho com que enfrenta as vicissitudes, e por ser quem é, Psique, aquela que pela fidelidade do seu amor venceu todos os perigos, corpo de ave e cabeça humana, ser de uma dimensão mais elevada para quem as vicissitudes só servem para mostrar a grandeza. A tragédia é parte necessária da grandeza, ela continua a ser o sétimo céu, a recompensa máxima; psique.
Maiakovsky, ao contrário de Marina abraçou desde o início a revolução. A revolução que esperava. Ele declamou os seus versos para o povo nas praças de muitas cidades, como identifica precisamente no poema desta antologia. Estava na vida e na revolução como artista, mesmo quando se colocava ao serviço da revolução. Nada diminuiria a sua arte, era com ela e através dela que era o que era. Maiakovski foi sempre um homem livre que se pôs ao serviço daquilo que bem entendeu, mas sempre livre. Quando lhe diziam os seus poemas eram demasiado elevados para o povo, ele respondia que era preciso elevar o povo e não diminuir a sua poesia.
Não deixa de ser significativo que não tenha sido a revolução a conduzi-lo ao suicídio, mas o amor ou a perda do amor. Maiakovski não se deixou reduzir, viveu intensamente, foi um habitante da poesia, e morreu porque amou demais, ou talvez porque o amor fosse já insuficiente.
Maiakovsky tem nesta antologia o poema: “a nuvem de calças”. É um poema extenso e é possível observar-se nele grande parte das suas características.
A força, a arrogância, a provocação com que Maiakovsky se atira ao mundo. “Vou atiçar com o coração sangrando/ rirei até fartar, mordaz, e desfaçado”.
A força da sua juventude, de sua diferença “não tenho uma cã na alma”, o espírito que o anima é outro. A juventude -22 anos- é uma das razões da sua força. Grandeza, diferença- fala do alto da sua juventude, a juventude é um bem, um ganho, uma virtude. Ele é todo lábios (…).
O que canta?
A força, a luta, a revolução, o povo, o pecado, os perdedores. A urgência de construir um mundo novo através da acção, das mãos, da vida real, de toda a gente unida e forte e lutadora, grita contra a beleza que se esconde em casa, é mais bela a fealdade da rua, “há amor nas almas dos marcados das bexigas”.
O poeta da vida, da revolução, das perdas reais, “um prego no meu sapato é mais terrível que a imaginação de Goethe” e “melhor que orações são artérias e músculos”.
Canta a fé em si e na revolução e no povo. O poeta é arauto e cumpre a sua função pelo povo e pela revolução, ama o povo, mesmo que este não o compreenda e não corresponda.
É preciso fazer a revolução sem contemplações, sem ternura, sem perdão. Grita: “Esmagai-os/Nós, os fortes, de passos largos”.
O poema vai entrelaçando histórias umas nas outras num rimo avassalador, interpolando as diferentes situações com um ritmo alucinante, e desfiando imagens arrevesadas, surrealistas, provocadoras, inovadoras, “o rosto bexigoso da chuva”.
Depois da história do seu amor com Maria, o sujeito poético revolta-se contra um tipo de “poesia de lágrimas e flores”.
Este livro permite um primeiro olhar sobre a grande poesia russa. É um interessante aperitivo para autores que, em si mesmos, são um faustoso almoço.

Louise Gluck- A Íris Selvagem

Louise Gluck- A Íris Selvagem

Soam neste livro várias e diferentes vozes e mensagens, quase se pode dizer mensagens autorais na medida em que a mensagem personifica, a fala é fala de alguém, a fala faz-se ser, ao falar-se. Esta personificação das mensagens perpassa todo o livro e é inaugurada pelo próprio título – íris selvagem remete para a “mensageira”, “a que leva mensagens pela palavra”, a que anuncia, símbolo da ligação entre o céu e a terra. Mas também de ligação entre vivos e mortos, efémero e eternidade, homem e natureza e Deus, mensagens de um todo, de uma universalidade do humano que fala, que se fala, como se mensagens da humanidade, o que é dito tem a ver com o pulsar do que é de todos na humanidade, universalidade.

Observamos umas vezes a voz de Deus tecendo comentários sobre a sua criatura, outras vezes a voz da criatura, ora clamando por Deus, ora observando o seu silêncio, ora identificando-se com a própria natureza. Há uma ligação entre mundos, o mundo dos mortos, do nada, da eternidade, de Deus, e uma escada permitindo a passagem de uns mundos para os outros. Por vezes ouve-se uma voz que parece de um ser intermédio -um anjo? – que observa os humanos de um ponto de vista não divino, mas superior ao humano. Em outros poemas a morte é uma passagem a partir da qual o nosso ser desabrocha em toda a sua totalidade, unindo-se ao universo, sendo universo. Há um contacto com o universo, com o sofrimento – “capaz de sentir a seiva borbulhante” -, uma profunda ligação do indivíduo com a terra, o universo, um destino comum.

Um livro diferente, que tem de ser lido com grande acuidade e paciência, para se ir descobrindo as suas diferentes vozes naquele marulhar ascético, seres surgindo do nada, falando e desaparecendo como vagas do mar, vozes ascéticas, depuradas, despojadas, quase frias, universais.

Hamlet

Hamlet

Hamlet abre para um mundo de possibilidades. Talvez todos os caracteres sejam dialécticos, mas essa dialéctica está aqui mais visível que nunca. Não só a personagem Hamlet, mas também outras personagens. Que pensar de Polónio?, a sua pretensa sabedoria que vem da experiencia mostra-nos apenas que cada um de nós escolhe do mundo as ideias que se melhor se adequam a si e faz disso a verdade. Mas são apenas ideias que têm de ser pensadas a cada instante, o que a personagem não faz, tornando-se um idiota sábio que tem a certeza absoluta de tudo. Parece achar que nunca falha e não acerta em nada. Considera-se tão sério e tem um comportamento manipulador e imoral, inventa boatos, é prepotente, grosseiro, não respeita a privacidade de ninguém, manipula como mais lhe convém tudo e todos. Até o pouco que aprendeu na vida o atrapalha.
Mas o seu único crime é ser quem é, e quem pode fugir ao que é?
E que dizer de Ofélia?
É das personagens mais interessantes da peça juntamente com Hamlet. Antes de enlouquecer nunca ouvimos Ofélia. E a razão é a mais simples de todas as razões, Ofélia não existe. Não sabemos quem é Ofélia pela simples razão que não é ninguém. Ou melhor, é o que os seres masculinos da sua vida quiserem. Obedece ao pai, obedece ao irmão, e mostra-lhes sempre o mesmo carinho, a mesma simpatia. O que pensa?, não sabemos. Diz o que se espera dela e faz o que lhe dizem para fazer. Não tem uma existência própria. Dá-nos uma pequena ideia de até onde podem chegar o abuso do poder, a manipulação e a prepotência, é um títere nas mãos de um pai manipulador.
Por estranho que pareça, ou não, Ofélia apresenta a sua própria voz quando enlouquece. Só aí, por entre as palavras desconexas nos apercebemos da sua intranquilidade e angústia. Aí temos entre incoerências a voz daquele ser que nunca desabrochou completamente. A sua loucura terá algo a ver com a necessidade de se construir por suas próprias mãos agora que o pai morreu?, agora que ele morreu quem a dota de existência?, ficou sem saber quem era?, talvez não tenha aguentado olhar para o abismo de si, talvez não tenha aceitado ser tão diferente do ser a que o pai e a sociedade em geral a haviam determinado. Será isso?
E o interessante é que as vozes voltam a vesti-la na morte, a donzela recatada torna-se mais uma vez o que esperam dela, agora pela voz de uma mulher, a rainha, que a integra numa espécie de imaginário feminino, um ser angelical, símbolo da donzela virginal, incorporando-se na natureza. Mais uma vez o imaginário social a vestir a mulher. Só que agora já não através da voz masculina, mas da voz feminina, que aparentemente parece acreditar neste tipo de imaginário que os homens inventaram para as mulheres. O resultado continua a ser uma falsa imagem da mulher e um colete de forças a vestir aquela que morreu, que nem morta se livra de ser vestida pelas vozes dos outros.
A peça mostra uma espécie de dois mundos antagónicos, noite e dia, invisível e visível, profundo e superficial. Um mundo puro, perfeito. E o mundo da noite, profundo, inconsciente em que domina o caos, os desejos inconfessáveis e o ego demoníaco.
Para todos é como se só existisse o mundo visível e perfeito, mas o outro mundo escondido vai formando papos na pele do visível mostrando que algo se passa no fundo do ser. Um desses papos profundos a dar sinal da existência dessa profundidade escondida são os festins que o rei dá e em que se bebe até cair. Orgias que, diz Hamlet, lhes valem o desprezo das outras nações. É esse mundo fundo, mau, caótico e indócil a vir às margens do visível reclamar para si o ser humano.
Já tudo se disse sobre Hamlet.
Hamlet que não encontra em si firmeza para cometer os actos que se propõe. Hamlet que motivado pelos ciúmes é injusto e grosseiro com Ofélia. E, depois, claro, a grande questão – ser ou não ser?
É uma questão que perpassa toda a peça, lutar contra o destino ou ser indiferente às setas que nos tentam abater?
E dentro desta questão, no miolo desta questão, uma outra. Será que lutar com o destino ou sermos indiferentes é uma escolha nossa, ou inclinamo-nos para uma dessas hipóteses por personalidade, quase como um destino que não podemos travar porque tem a ver com o que nós somos. Será que foi isso que aconteceu com Hamlet?
Será daí que vem a sua hesitação e revolta?
Era a hora de destruir sem contemplações e encontrou-se, não com o homem de acção que urgia ser, mas com o pensador cheio de escrúpulos e dúvidas a questionar-se em vez de agir?
É uma possibilidade, e se for assim, ai vemos o pensador pensar mil vezes antes de agir, ter todos os escrúpulos, não querer punir sem ter a certeza e depois, quando age, já tarde e más horas, só o faz como um tresloucado, como um carro desgovernado levando à sua frente inocentes e culpados sem qualquer hesitação, atropelando os seus próprios princípios.
É uma peça onde cada um é o que é e não sai desse círculo. E ao ser cada um o que é, é mais do que parece porque todos os caracteres humanos são coisas diversas e até contraditórias. Mostram uma coisa, são outra e pensam ainda outra. Para além disso, ainda há o inconsciente que ninguém verdadeiramente conhece e que influencia o nosso comportamento. Esta peça é sobre tudo isto como já muitos disseram.
Duas asserções, ainda, em termos da escrita. O facto de ser uma peça que vai directa ao essencial, ao que é. E depois as mudanças de linguagem, tanto das várias personagens, mas também da mesma personagem em diferentes situações, seja a linguagem da loucura de Ofélia, mas também a linguagem mais grosseira de Polónio, e do próprio Hamlet com Ofélia.
Muitas interpretações se podem dar a este texto imortal, mas o melhor será certamente lê-lo e relê-lo.

Harold Bloom – O Cânone Ocidental

Harold Bloom – O Cânone Ocidental

Se me fosse pedida uma frase síntese sobre este livro diria, não uma, mas duas. Um livro com qualidades. Um livro a que dá gosto voltar. Esta segunda, como é óbvio, está inevitavelmente ligada à primeira. São muitas as suas qualidades, desde logo a liberdade de exposição, o ataque ao que não aprecia de forma séria e rotunda, a ideia da desigualdade de valor entre escritores, a defesa do fenómeno do estranhamento como forma de se sentir que se está perante um grande obra, a sua perspectiva sobre a influência de Shakespeare, a enorme erudição e o contacto profundo com as obras. Estas qualidades de raiz perpassam como seiva por todo o livro e são a alegria por onde o pensamento respira.
Outro dos seus conceitos interessantes é o de ansiedade da influência, conceito complexo que não vou definir porque seria tarefa inglória e arriscava-me a dizer disparates – posso dizer que é um conceito central deste autor, é muitíssimo abrangente e apresenta várias faces, desde a mais óbvia – a grandeza de um autor que se estende pelo tempo adentro em relação aos autores seguintes que se formam à sombra desse autor e que, inevitavelmente, necessitam para se construir de distanciamento. Mas esta é apenas uma das dimensões do conceito ansiedade de influência que me parece tem uma profundidade intelectual e até emocional que ultrapassa muito isto que disse. De qualquer modo, creio que é impossível os grandes escritores não se medirem com os grandes escritores anteriores, até para se refazerem de outro modo, o que nunca esconde a influência desses outros autores, mesmo quando os escritores mais recentes fazem desabrochar de outra forma essas influências. Enfim, qualquer autor tem que travar as suas lutas para se construir como autor.
Bloom analisa vinte seis autores absolutamente canónicos, segundo ele, da literatura de sempre.
Eu não li o livro de seguida, há uns meses atrás tinha lido uma parte, vi-me obrigado a parar, e agora voltei e aproveitei, não só para ler o que me faltava, como para reler alguns autores, e voltei a sentir o mesmo agrado pela erudição, fluência da escrita e análises apresentadas.
E aqui faz sentido a segunda frase com que iniciei a minha resenha, não é um livro fácil, nem em quantidade nem em qualidade, pelo que ler e reler é agradável, estimulante e torna-se quase necessário, diria indispensável.
Depois, claro, são quarenta anos de leituras, de pensamento, de analise e de escrita de Bloom sobre estes autores e suas obras. Este livro grande é pequeno para a qualidade dos autores escolhidos e para o que poderia ainda ser dito, e isso também faz deste um grande livro.
Quanto à sua análise, é coerente com as suas ideias, explicita e relaciona autores de uma forma genial, é profundo e enriquecedor, no entanto, creio que talvez exista, por vezes, uma certa redução da obra dos autores de modo a poder acertar a sua teoria de ansiedade de influência influencia com a obra estudada. Por exemplo, diz de Pessoa que “Pessoa (…) é Whitman renascido, mas um Whitman que dá nomes separados a «o meu eu», «o eu verdadeiro» ou «eu, eu mesmo», e «a minha alma», e escreve maravilhosos livros de poemas para os três, assim como um volume à parte com o nome de Walt Whitman.”
Não sei se Pessoa será só isto. Bloom também não diz que é só isto, mas analisa-o fortemente deste modo. Eu diria que há mais Pessoa em Pessoa. Talvez até haja mais Pessoa que alguma vez em algum Whitman sob certos aspectos, mas isso é, evidentemente, discutível.
É interessante conhecer as perspectivas e análises deste autor e até confrontar com outras perspectivas e com as nossas leituras sobre as obras em questão. Vale a pena. Um grande livro para ler, reler e confrontar.