Início do conto – O dorso da vida

Início do conto – O dorso da vida

A rapariga das mil bocas

A rapariga jogava com a bola transparente e luminosa da vida, ora a cobria em movimentos suaves, soltando espontâneas gargalhadas, ora se deixava cobrir acercando-se da infância com o linguarejar irresistível da fantasia, navegando no pássaro que há dentro das pedras, enlouquecendo palavras de vidro, destemida como os príncipes da chuva.

Mas um dia, há sempre um dia, a rapariga passou a circular dentro da câmpanula da engrenagem da vida adulta, no inóspito e escuro quotidiano onde as palavras vergam sobre a gorda adultície, palavras encharcadas de raiva, violência e morte cortaram a cabeça aos países de sonho de que o seu íntimo de rapariga era proprietário. Palavras enormes como tufões ficaram moídas a lascas de infância desfeita e os olhos enevoaram-se-lhe na fuligem dos dias.

Mãe

A mãe curvava-se a perseguir a sua ninfazinha franzina e doce, danificava-lhe a linguagem dos órgãos, roubava-lhe grafemas, fonemas, falava-lhe com palavras feitas que tapavam a visão, vestia-a de palavras curtas, gastas, ameaçava modificar qualquer lugar criado pela linguagem, a rapariga era um cesto de palavras que a mãe puxava a seu belo prazer, fazendo-a morder o pó com o gancho do cabelo.

Eram momentos felizes para a mãe, sentia-se verdadeiramente livre e feliz quando usava o poder, crescia desmesuradamente em maldade.

O dia em que a mãe fugiu com um caixeiro-viajante foi o mais feliz da filha.

Homem

A rapariga perdeu-se da infância, ganhou um desconhecimento sério e imponente, um homem vestiu-a de uma peça só.

O homem diz: a rapariga é escrava dos tempos modernos, uma das melhores escravas porque não se apercebe verdadeiramente do que é. E eu sinto a doçura do mal, a doçura dos gestos com que destruo a sua vida. Angustia um pouco, não sou completamente insensível, não sou igual ao homem antigo que obrigava a mulher à ignorância. Esse não é o meu natural. Eu sinto, e porque sinto sofro, mas resisto. Fui egoísta e fiquei com ela para mim. Serve-me com fidelidade. E quando me embriago, o que acontece com frequência, possuo-a selvaticamente. Ela chora, implora, mas estou demasiado bêbedo para dar valor aos seus gritos e espanco-a com requintes de malvadez. Magoo-a com sofreguidão. Sofre e gozo mais profundamente. Conheci-a com 16 anos, hoje tem 24. É-me muito afeiçoada. E no entanto sei que a destrui. Sei que poderia potenciar o que é, as suas qualidades, mas em vez disso prendi-a e uso-a sempre que quero, como a um objecto de luxo. Existe para minha recreação. Trato-a como uma prostituta. Tudo o que ela poderia ser quando lhe dei a mão, destrui, a vida para ela perdeu sentido, brilha só para mim. O meu mal é daqueles que precisa de violência a toda a hora para sobreviver.

Um dia a rapariga chegou a casa cheia de papos, o corpo belo transformado numa tapeçaria de mil bocas, medonho.

O homem aterrado abandonou-a e foi buscar outra.

A rapariga amava a sua fealdade, quanto mais repugnante se tornava à vista de todos, mais se amava. Construiu-se do mesmo material com que a queriam destruir, criou o seu próprio bem e o seu próprio mal sem ser colonizada que ela não era nenhuma ilha no meio do mar. Tornou-se a rapariga das mil bocas a cresceram de dentro para fora do corpo e a falarem sem parar, perpetuamente, ininterruptamente o dia todo, as mil bocas do corpo bebiam metade do oceano, a rapariga das mil bocas repete de tudo a última versão do que lhe diz o mundo, não filtra nada, desbobina repetida e rapidamente tudo o que sabe de dentro de si, e tudo o que ouvia nas ruas, nas casas, nos sítios por onde passava, e quando nada mais tinha para dizer, ela dizia aquilo que imaginava, tudo, tudo, tudo, não por culpa sua, mas das mil bocas no corpo, só duzentas bocas tem nos ouvidos, assim que ouve, fala, não guarda nada porque reter informação magoa-a, as bocas começam a comer-lhe a carne, a comer, a comer, a comer, as mil bocas comem a carne da rapariga. O cérebro da rapariga das mil bocas não armazena, a informação chega à cabeça e logo as mil bocarras se apoderam dela e a reproduzem, tecem com a informação aquários gigantes onde milhares de pássaros vermelhos navegam e casas de muitas cores; até tudo desaparecer devorado pelas mil bocas.

O dia a dia enche-se de fios, imagens, representações, interpretações, a tal ponto que a rapariga não mais tacteia o dorso da vida. Consola-se pensando que de dez em dez anos a vida se ergue de novo em toda a sua força inexorável e, com a simplicidade das grandes tragédias naturais, varre tudo, procedimentos, sentimentos, emoções, verdades, sensibilidades, valores, necessidades; varre todo o lixo sem dó nem piedade, deixa limpo o dorso da vida como uma parede branca, edifica uma nova forma de se ser e dizer. A rapariga das mil bocas não precisa de lutar contra o desejo que ninguém a deseja já com aqueles papos enormes, projectados para fora do corpo.

Uma vez por outra a rapariga vira-se do avesso, arranca de si a beleza interior que a infância dela carrega como uma canoa e a fealdade exterior sai com ela, as bocas entram para dentro dos órgãos. A fealdade exterior está suportada na beleza interior, há estranhas ramificações entre a beleza interior fechada sobre si e a fealdade exterior aberta ao mundo, como se o fruto da beleza fosse a fealdade, como se o fruto da fealdade fosse a beleza. Pendura a beleza interior no armário como um casaco velho e sai para a rua com a sua beleza exterior, atravessa as velhas casas, ouve os piropos dos homens minúsculos, fechados em cubículos de ruas.

Sem a beleza interior sente-se leve, pura, de volta à infância, mais que ver o mundo vê as coisas constitutivas do mundo sem a visão de conjunto, a liberdade de não ter visão nenhuma molha-a de felicidade e alegria, vive esses momentos como se fossem eternos e únicos, vive a totalidade do singular que a beleza exterior lhe dá.

Final do conto – O país das bicicletas azuis

Final do conto – O país das bicicletas azuis

O evento mais importante na vida de um bicicleteiro azul é o casamento com seus rituais de namoro e acasalamento, sendo o primeiro ritual o de identificação e reconhecimento do bicicleteiro macho enquanto pretendente emocionalmente preparado para o acasalamento, o que tem dois escopos, serve para espantar os restantes bicicleteiros azuis machos e atrair as bicicleteiras azuis fêmeas. Os pneus expandem-se, incham, ganham volume e mudam de cor, cada punho e cada pneu parece um grande balão cor-de-rosa, representando um sinal de virilidade e disponibilidade para a cópula, fazendo com que os outros bicicleteiros machos se afastem e as bicicleteiras fêmeas se aproximem. Depois de, através destes procedimentos ritualizados, se identificarem, os bicicleteiros têm por missão impressionar a bicicleteira fêmea. É tradição os bicicleteiros machos conquistarem as suas pretendentes com uma série de presentes de cor azul depositados paulatinamente nos jardins que culmina na construção de uma estrutura azul para bicicletas.

O macho decora o espaço em frente à casa da fêmea com objetos brilhantes de coloração azul de modo a atrair a sua atenção. Quando finalmente a bicicleteira fêmea se encanta pelos objetos e se aproxima é hora de fazer a dança do acasalamento e consumar a relação. Dançam tudo o que se lembram, até break dance, mas sobretudo não podem deixar de executar o famoso passo moonwalk enquanto deslizam sensualmente pelo tronco de uma árvore.

O órgão reprodutor, aparentemente invisível em outras épocas do ano (meia dúzia de finas plumas na extremidade final da bicicleta) torna-se visível durante o ritual de acasalamento. O bicicleteiro macho passa repetidamente as penas rígidas no rosto da bicicleteira fêmea, criando uma sensação agradável na fêmea, o que faz com que esta se aproxime do bicicleteiro macho e coloque o guiador entre as plumas.

A bicicleta macho enfia o punho na buzina da bicicleta feminina e circula com a bicicleta feminina pelo ar dando assim uma volta à cidade. É assim informada a comunidade bicicleteira da formação de mais um casal. O acto sexual público é muito aplaudido. Os intervenientes fazem questão o maior número de bicicleteiros os veja e saúde que é para dar sorte.

Continuação do conto- O país das bicicletas azuis

Continuação do conto- O país das bicicletas azuis

Logo de manhã, os bicicleteiros azuis saem de casa e vão-se transformando muito naturalmente enquanto caminham. O pescoço alonga para diante e ligeiramente para cima formando a barra e o guiador, as mãos recurvas transformam-se em punhos e fixam-se ao guiador, o rabo forma o selim enquanto o tronco se espalma tornando-se o quadro da bicicleta. As pernas reviram e transformam-se em rodas. Os pés viram para fora consubstanciando-se em pedais que se fazem circular com a energia do próprio bicicleteiro, manhã cedo, até ao local de trabalho. Existem sete raças de bicicletas com diferenças mínimas a nível de forma, a que correspondem também sete diferentes tons de cor azul. Escusado será dizer os bicicleteiros diferenciam facilmente mais de 100 tons de azul, sendo os mais comuns: azul meia-noite, azul real,azulaço,azul eléctrico, azul cobalto, azul centáurea e azul céu.

O país das bicicletas azuis tem uma longa e obsessiva história de preocupação com o azul, os seus cientistas, poetas, pintores, filósofos, estudiosos e simples amadores debruçam-se sobre os vários tons da cor azul desde tempos imemoriais. Os animais mais amados são a aranha-azul, a gralha-azul e a garrafa-azul cujos corpos apresentam tonalidades azuis, enquanto lagostas, caranguejos e polvos são venerados pelo sangue azul que transportam nas veias.

Num primeiro período autores houve que identificaram a cor azul com frieza, depressão, monotonia, mas, logo outros autores recusaram esta associação defendendo não se tratar de frieza, nem de monotonia, mas de paz, ordem, harmonia. Mais recentemente, foram mais longe e a cor azul foi identificada como sinónimo de criatividade e tranquilidade.

A adoração do país pelo azul é de tal ordem que praticamente todas as famílias bicicleteiras têm em casa uma reprodução do quadro a noite estrelada de um célebre pintor bicicleteiro que se matou.

Há ainda o grupo dos chamados bicicleteiros azuis, um grupo de pintores do século XIX que se especializou em pintar quadros de tonalidades azuis, em parte percursor dos grandes pintores da actualidade que pintam quadros azuis, ou têm pelo menos uma fase azul.

A comunicação das bicicletas azuis é muito variada e rica. As bicicletas comunicam em código buzinal, parente do código morse, que permite enderecem e recebam mensagens sem nunca parar de andar de bicicleta. Muito formais, os bicicleteiros usam, quando no exterior, esse código e não apreciam conversas muito longas, apenas breves mensagens. De manhã dirigem-se todos para o trabalho. Neste país não há desemprego. Uma vez no local de trabalho os bicicleteiros dirigem-se para a porta do edifício onde trabalham e imediatamente se transformam em seres humanos. Dentro dos edifícios comunicam uns com os outros através da dança. As suas salas largas e ovais permite conversarem à vontade, cada volta tem um significado, falam sem que um único som se ouça.

Juntam-se a beber, alguém salta para o meio da sala e fala sem parar através de passos de dança, depois outro e mais outro e assim sucessivamente. Muito gostam de falar os bicicleteiros azuis.

Ao fim da tarde, depois do trabalho, têm o hábito de pedalar até à montanha, para se encontrarem, conversarem e descontraírem em espaços próprios. No percurso da montanha foram construídas praças com receptáculos para copos onde os bicicleteiros convivem sem risco de se começarem subitamente a mover. Os punhos acedem aos copos colados aos muros artificialmente construídos e os bicicleteiros bebem entornando com os punhos o líquido para o local onde habitualmente as bicicletas têm as campainhas.

Conto- O país das bicicletas azuis

Conto- O país das bicicletas azuis

Os bicicleteiros possuem, dentro dos edifícios, um corpo exactamente igual ao nosso, membros, tronco, cabeça, mas, uma vez no exterior, esse corpo transforma-se em uma bicicleta azul. Escusado será dizer que para os bicicleteiros azuis esta transformação exterior resulta tão natural como para nós, nada nos transformar. E era firme convicção dos bicicleteiros azuis que em todos os universos que existem, e em outros que porventura venham a existir, ou até naqueles que tenham porventura existido e já terminado, seria também habitual, homens, mulheres e crianças transformarem-se, no exterior, em bicicletas azuis.

Faz-se aqui uma ressalva para explicar que também os recém-nascidos mal saem do hospital logo se transformam em bicicletinhas muito pequenininhas e azuis.

Alguns pais, preocupados, vestem-nos, quando saem da maternidade, com um camuflado que não deixa à mostra qualquer nesga do seu corpinho e desse modo conseguem os seus bebés não se transformem em bicicletas azuis nos primeiros dias de vida.

Havia, aliás, no país azul uma grande divergência entre pais e pais, pais e pediatras e pediatras entre si sobre a melhor forma de proteger os bebés. Havia pais, adeptos da maravilhosa pedagogia do esforço, da ginástica e do ar livre, que repudiavam uma educação excessivamente protectora e todas as formas anti-naturais de educar os bebés, designadamente, o camuflado para bebés, outros pais, defendiam, pelo contrário, o uso do camuflado como forma de salvaguardar o sistema imunitário dos recém-nascidos. Os dois tipos de pais encontravam-se, está visto, em campos opostos da barricada no que concerne à educação dos bebés no país das bicicletas azuis.

Relatavam estes últimos pais, inúmeros casos de recém-nascidos que não haviam resistido a infecções por carência do seu sistema imunitário, e a energia, diziam eles, necessária à defesa do sistema imunitário fora gasta nas transformações de bicicleta para pessoa e de pessoa para bicicleta, tendo esses bebés falecido poucas horas depois de terem gasto, de forma tão despropositada, a energia que tão necessária lhes era para sobreviverem nos primeiros tempos de vida.

Os defensores do ar livre acusavam por sua vez os defensores do camuflado de inventar números, ninguém, diziam, podia confirmar que esses bebés haviam morrido por ausência de defesas do seu sistema imunitário e atiravam para a mesa os números daqueles recém-nascidos que haviam morrido dentro do camuflado, designadamente, por falta de ar. E falavam também das implicações que teria no desenvolvimento psicológico dos bebés, o facto de terem sido expostos ao ar sem se transformarem, e chegados aqui esgrimiam os números das depressões, psicoses, paranóias, esquizofrenias daqueles a quem os pais haviam impedido vivessem de forma natural. Aqui, zangavam-se os outros pais porque a ciência, diziam, não comprovava nenhuma daquelas estatísticas. Também entre os pediatras havia uma guerra entre os defensores acérrimos do camuflado e os que defendiam o ar livre, a natureza, o esforço, entre estas duas posições havia ainda a dos pediatras que militavam numa posição intermédia defendendo que só o rosto do bebé permanecesse em contacto com o ar livre, segundo eles, seria prejudicial impedir o contacto visual do bebé com o exterior, por fim, havia aqueles que defendiam uma análise caso a caso. Para aumentar a confusão havia ainda entre os pediatras os que consideravam que, certos ou errados, os pais é que deviam decidir, mas logo outros se levantavam para defender que deveria ser a ciência e não os pais a identificar o caminho correcto.

As crianças que, como se sabe, são imprevisíveis e curiosas, gostavam de experimentar as transformações. Assim, brincavam muitas vezes a puxarem-se para a frente e logo a seguir para trás de modo a transformarem-se e a destransformarem-se quase em simultâneo, a experimentar por a cabeça de fora do camuflado transformando-a em guiador enquanto o resto do corpo permanecia sem se transformar, a experimentar com um pé, uma perna, um braço, uma mão. É que, enquanto nos adultos a transformação só ocorre inteira ao fim de alguns minutos, nas crianças a transformação ocorre imediatamente assim que qualquer parte do corpo entra em contacto com o exterior.

Final do conto – O homem que tecia ventos

Final do conto – O homem que tecia ventos

Junto à linha do equador concebeu outros ventos que logo se encaminharam para os trópicos, chamou-lhes ventos contra-alísios. Na Ásia os ventos que se formaram começaram a soprar, uns do mar para o continente, outros do continente para o mar; a esses chamou monções.

Assim, dia após dia, foi criando ventos por todos os continentes e mares.

Já muito velho o homem que coleccionava ventos pôs ao pescoço o seu cachecol vermelho, deixou-se cair em cima do ventre do ar que ainda lhe sobrava preso no curral e com um certeiro golpe de agulha de tricôt desamarrou-o das cordas que o prendiam. Segurou-se em cima do ar, curvado, duas grossas agulhas de tricôt espetadas no ventre do ar, qual Zeus em cima do magnífico Pégasus.

Abriu o portão da garagem com o comando universal, segurou-se com força e esperou. O ar arrancou esmigalhando o que lhe aparecia à frente como mil cavalos selvagens, numa cavalgada demencial, em todas as direcções.

O homem voou desvairado pelas cinco partes do mundo, deu a volta ao mundo duas vezes, encontrando-se nos mares, nas montanhas secas e áridas, nas planícies, acomodando-se a umas zonas e fugindo a toda a velocidade de outras, reencontrou os ventos que plantara nos vários continentes forjando as diferentes formas que hoje têm de se comportar hoje em dia em cada sítio específico.

Alguns ventos fixaram-se num sítio, outros continuam a circular em liberdade pelo mundo, não se deixando aprisionar a padrões, obedecendo apenas à pressão atmosférica ou às formas de relevo de cada região. Os mais irrequietos e desassossegados transformaram-se permanentemente em ventos, outros, mais calmos, só se transformam em ventos em determinadas estações do ano.

Fim

Nunca mais ninguém ouviu falar do homem que criou os ventos. Apenas, às vezes, alguém insiste em afirmar ter visto um homem de barbas brancas e cachecol vermelho sentado em cima de um furacão, mas, claro, ninguém acredita. Toda a gente sabe era completamente impossível um homem usasse alguma vez, em redor do pescoço, um cachecol de cor vermelha.

Continuação do conto- O homem que tecia ventos

Continuação do conto- O homem que tecia ventos

O ar

Esta ideia insólita surgiu-lhe ao ver a velocidade supersónica com que as mulheres teciam, a velocidade galvanizou-o, não teve mais nada, roubou uma agulha de tricôt, subiu a montanha e mergulhou no infinito, mal se viu lá dentro do túnel branco e comprido começou a tricotar no nada manejando as mãos a toda a velocidade como via as mulheres fazerem, rápido, sem parar, sempre, infinito fora. Chegado ao local onde o ar ressonava a plenos pulmões, julgando estar a espetar a agulha no infinito, espetou-a no ar que gritou de dor e começou logo ali raivosamente uma rabanada de vento capaz de levar tudo à frente, o que fez o homem que tecia ventos dobrar-se e desdobrar-se convulsivamente, enquanto ia deslocando quase sem querer do infinito o ar atmosfera fora sempre a tricotar, apesar da insólita situação em que se via. Até que de repente se viu atirado rabanada de ar fora, uma e outra vez, contra o espaço mais longínquo, mas agarrou-se sempre com ambos os braços ao pescoço daquele ar ainda sem nome, mantendo a agulha de tricôt espetada no ventre do ar enquanto se esforçava por não cair, o que a breve trecho, e apesar de todos os seus esforços, haveria de acontecer, se não lhe tivesse ocorrido prender-se com o cachecol que envergava ao pescoço ao ar. Assim, preso, conseguiu em poucos instantes não só domar o ar, mas conduzi-lo e levá-lo para a sua propriedade onde, depois de abrir as portas com o comando universal que trazia no bolso, o enfiou todinho na garagem que havia construído para guardar as alfaias agrícolas, e onde o ar ficou aprisionado e, por fim, calmo. Mais tarde, criou um enorme curral coberto para o ar aí poder viver à solta. E foi ali que o homem criou os primeiros ventos à imagem daquela primeira revoada de vento que o atacara e não cessava de querer reproduzir. Durante muito tempo admirou a forma como via o ar unir-se e desunir-se, distender-se, ganhar e perder volume. Ficou curioso e pôs-se algumas hipóteses, mas não sabia se os ventos tinham uma só forma de acção, ou se podiam agir de maneiras imprevistas, e que maneiras de agir imprevistas seriam essas. Continuou à espera, a observar, assim que viu um pedaço de ar considerável separado dos outros, enfiou-o numa bacia de água, tricotou-o rapidamente enquanto rodava a bacia, de tal maneira que o ar acabava sempre por se distribuir criando áreas de maior e menor quantidade de ar sobre a superfície. Enquanto fazia este mister, verificou havia, mesmo que nada movesse, uma permanente deslocação de ar para as zonas onde a quantidade de ar era menor, preenchendo sistematicamente esses espaços, originando o ar ventos para chegar mais rápido ao sítio a que queria chegar. O homem julgou perceber ser este um dos modos de acção do ar e resolveu pô-lo em prática na atmosfera.

Homem viajante

A partir desse dia tornou-se um viajante incansável, sempre a transportar os pequenos ventos para todo o tipo de partidas do mundo, levou o ar aos sítios mais inacessíveis. De manhã, escondia o ar nos bolsos da jaqueta e das calças, às vezes levava ainda algum junto ao peito, e metia-se dentro do infinito, calcorreando em pouco tempo o mundo inteiro. A primeira viagem foi aos pólos a deixar lá pedaços de ar. Mal o largou na direcção da linha do equador, o ar transformou-se em vários ventos que logo ganharam forma e força. Alguns houve que seguiram caminho para outras paragens, enquanto outros aninharam-se nas zonas polares e começaram a soprar a partir dessa zona, retornando a esse espaço como a uma casa, e aí se fixando. Chamou-lhes ventos alísios.

Continuação do conto- O homem que tecia ventos

Continuação do conto- O homem que tecia ventos

Criação

O homem, muito antes ainda de tecer os ventos que o haviam de tornar célebre, já tinha procurado e encontrado o infinito por baixo da montanha Atlas, tendo ficado conhecido como o homem que encurralou o infinito, para onde, aliás, saltava constantemente, entrando e saindo nos sítios mais assombrosos e desconcertantes.

Na verdade, não fosse a descoberta do infinito, e provavelmente nunca existiriam ventos no mundo.

Mas o melhor é contar como tudo se passou.

No princípio do princípio dos tempos, poucas horas depois de ter criado os homens, num dia calminho, como eram todos os dias do mundo desse tempo sem ventos, Deus deslocou algumas centenas de homens e mulheres para habitarem o centro do mundo e disseminarem o género humano, deslocou-os de helicóptero até ao centro do mundo abandonando-os aí à sua sorte.

As mulheres começaram, ainda vinham no helicóptero, a murmurar contra os homens enquanto tricotavam, protagonizando um momento de perigo elevado quando uma delas acertou, acidentalmente, com uma agulha de tricôt no olho do piloto após um inesperado salto do helicóptero. O que lhes valeu foi o co-piloto tomar conta do helicóptero enquanto os homens davam apoio moral ao piloto que se esvaia em sangue.

Assim que o helicóptero os deixou, os homens começaram a jogar às cartas, à bola e a mandar os rapazes à venda buscar cerveja.

Como a tribo se começasse a reproduzir muito rapidamente, as mulheres exigiram que os homens começassem a trabalhar como forma de diminuir os elevados índices de reprodução. Os homens começaram a sair de manhã para trabalhar nos campos, dando lugar àquela que ficou conhecida como a primeira pré-revolução agrícola. A tribo deixou de ser vista como um conjunto de indolentes felizes que viviam sem trabalhar, aproveitando simplesmente o que a natureza lhes dava, para passarem a ser uma tribo muito pobre, que se esfalfava a trabalhar de sol a sol enquanto se tornava mais pobre a cada dia que passava.

Entretanto, as mulheres continuavam a fazer o almoço, a coscuvilhar umas com as outras e a tricotar furiosamente.

O homem que criou os ventos sentia desde tenra idade uma atracção pelo tricôt que via as mulheres incessante e activamente praticarem. Como explicaria mais tarde na sua autobiografia que os homens da tribo iriam fazer passar oralmente de geração em geração, o que o atraía no tricôt era ver as mulheres criarem continuamente todo o tipo de roupas a partir dos mais variados tecidos, num passe de mágica, esta criação contínua explicaria ele, estimulava a sua obsessão por criar, apaixonava-o ver o movimento ritmado das mulheres no tricotar uma camisola, um roupão axadrezado, um par de calças, uns casacos escoceses.

Tanto andou atrás das mulheres que elas lhe ensinaram o ofício e ele criou o seu símbolo, a sua marca distintiva, um cachecol vermelho que passaria a levar para todo o lado e que tanto jeito lhe deu, como vamos perceber no decorrer da nossa história.

Além da sua obsessão pela criação alimentada pelo tricôt, havia no homem um desassossego que tinha a ver com a permanente monotonia de postal ilustrado que grassava no mundo.

Seduzido pela ideia de vestir a atmosfera com algo mais do que aquela pasmaceira a que assistia diariamente pôs-se a pensar que fazer à atmosfera algo parecido com o que as mulheres faziam às malhas, cobrir o corpo do mundo com uma espécie de camisola. Foi pensando nisto que lhe surgiu uma dúvida, que aconteceria se ele dobasse por suas mãos a atmosfera?, se fizesse uma espécie de tricôt com a atmosfera e as suas mãos dançassem nuas como as das mulheres, no tempo?

Poema – descida aos infernos

Poema – descida aos infernos

Tudo os infernos inundam quando se vê o outro ser, como uma penugem imberbe invadem a pele, a cinza o espaço, uma cratera o solo vistoso.

A dor do abismo mergulha na pele das coisas todas do mundo, não esquece penumbra, orifícios, cílios, dedos, rosto, peso, mãos, pestanas de sonhos, gaivotas passageiras do coração, mergulha nos ponteiros dos relógios, nos cascos dos cavalos, nas paredes, nos tectos das casas, na ventania, no mar, na areia das pradarias, na ternura das palavras, na cratera dos olhos, há uma solidão inatingível que se atinge e faz criar mais abismo, já só há caminhar para lá, sem ninguém que siga, indiferente ao ruído dos medíocres, avança sereno para a morte e para o fim, para a obra e para o nada, voltará à tona, húmido de terra e de húmus, violento na exegese da purificação e do sacrifício coberta a sua tez de uma cor indefinivelmente sombria, aprofunda a dor, não sai da dor, mastiga a dor, enfia a dor num suplício tremente num ombro, leva a dor a pontos traumáticos, inicia a dor na escada infernal por sobre os montes, usa a dor como coberta para deitar sobre a erva e comer farnel do íntimo que traz desde tempos imemoriais consigo atrelada ao corpo todo, dor porta da lembrança, janela do esquecimento, corpo estranho aninhado no corpo, dor solilóquio interior, mundo de aves e de sonhos que se abre e vira a face sem palavras em forma de lago azul e verde, montanha, estrada, corpo outra vez, dor a fazer caminhar, a entregar a alma às coisas de dentro, dor certa do diapasão da escuridão, abre-latas da garrafa do coração, dor vinho que a própria dor plantou, dor animal sorumbático, triste e trabalhador, formiguinha avantajada que alimenta, vive em cima de cada coisa que o é, pássaro de seda a tricotar sentimentos, a abrir caudais de países mediterrânicos no sangue, a fazer emergir transatlânticos de pavor no olhar.

Sente a incompreensão até ao fim, até ao fundo e arrisca tudo, ouve, é autêntico, como se os porcos fossem sérios e importantes e merecessem ser ouvidos, ouve os mais burros dos burros, os idiotas mais idiotas, autêntico até à medula com tudo e todos, num mundo de incapazes exige criação, grita: toda a gente é capaz, e espera a incompreensão como a criança espera o ralhete, como a criança pensa na punição desde o percurso de escola até casa, mil pensamentos fugidios e desorganizados lhe passam pela cabeça, desde o fugir de casa, pedir ao professor que não envie as classificações, enganar o carteiro, refazer classificações, até à aceitação do medo, do castigo, da dor tão grande como se o mundo acabasse ali à frente, o precipício a cada passo, pensar tudo e exigir a incompreensão, amar a incompreensão, desejar a incompreensão, regozijar-se com a incompreensão, provocar a incompreensão, estar atento às manobras do coração, estar atento ao sofrimento, à intempérie que cai dentro da alma, à negação, dar entrada aos parasitas para destruir.

Espécie de exegese, ser capaz de não ser, ascético, esquálido, minguado, exige não ser porque a curiosidade por tudo mata o aprofundamento do ouvir até à obsessão, ouvir é ir mais fundo no mergulho do mar de nós, ouvir é tarefa a tempo inteiro, ouvir é brincar com as conchas na areia do húmus das nossas entranhas verdes e cinzentas, é chegar aí, ouvir o enrolar das ondas do mar, ouvir onde cresce a natureza e os seres, estar atento à nidificação da palavra no ninho, a palavra e os sentimentos e os seres que os sentimentos buscam para se dizer, ovos, corais vermelhos de palavras que se sentem.

Recusa ser mais do que aquilo e luta entre esta recusa em ser mais e o ser mais a toda a hora, faminto de uma fome de invadir fronteiras de conhecimento e de ser, deixa a incompreensão alastrar, incendiar o universo, castigar, chicotear sem nunca ser menos, ser apenas aquele que caminha no seu caminho pessoal, lutar contra a tentação de responder, contra a tentação de não ser para mostrar ao mundo o que se é, não mostrar nada ao mundo, tornar-se invisível como ave migradora, invisível ao vulgo, navegar nos céus, reformular-se, conceber-se longe dos olhos do vulgo, consciencializar toda uma nova poesia fora dos olhos do mundo, resistir à tentação do fácil, continuar só e sem defesas para lá do amor, aceitar de braços abertos o ódio e conceber novos tratados internacionais da lonjura de um novo olhar, fabricar chuvas de palavra invisíveis, acercar-se da morte e do ódio e da incompreensão e fazer novos pássaros que voem para lá dos muros que a incompreensão crie, não lutar contra a incompreensão, deixar o ódio manifestar-se livremente, a mediocridade construir países de pus e de grilhetas e de algas e de cadeias personalizadas para cada ser humano, e contornar as grilhetas, as algemas, preso, mesmo assim continuar na sua vida pessoal, quando os últimos se venderem, quando os últimos desistirem, quando mais ninguém acreditar, é aquele que é, é ele que se afoita na noite à procura de histórias, é ele que sem medo vai à intempérie buscar o olhar com que possa elimitar-se nas nuvens, é ele aquele seu irmão que é seu eu e não é ele, o eu que é filho do mesmo pai, um pai que era outro quando concebeu aquele filho, um pai que quando o concebeu já não era quem tinha sido, e ele o filho busca o pai que nunca conheceu, e aquele que conhece o pai está lá fora na intempérie a sacrificar-se para ser de novo o pai, anda ao deus dará a perder-se nos caminhos sombrios, a ser sem nome e sem medo e com a morte às costas, esse ser que veio do nada e ao nada torna, esse ser que emparceira com a vida, e ele do lado de cá, ele protegido a servir-se do irmão para através de olhos emprestados falar do mundo, da vida, do vento, do mar, da chuva, dos seres desgarrados que sobrevivem à noite, que se escondem em becos, que fogem da vida, que procuram uma nova cova da morte, seres despojados, seres que se encostam à vida e a sentem, afloram a vida, e ele um escaravelho que insidiosamente vai beber com os olhos à matéria da vida que esses seres trazem dentro de si, fora de si, nos cabelos, nas mãos, em todo o corpo, nos órgãos na alma, nas entranhas, ele como um escaravelho, ele bem trajado, ele como um diletante, ele como um ser de outro mundo, outra galáxia, outro planeta, desce a chafurdar na vida por intermédio de seres outros, ele bem trajado no seu fato axadrezado, nas suas mãos delicadas e limpas chafurda no corpo daqueles seres abjectos, de unhas sujas e cabelos crespos, aqueles corpos que nunca tinham visto água trazem vida que ele pode limpar e usar nos seus cadernos de poesia, ele que não vive, eram seus irmãos, todos eles seus irmãos e o seu pai fora o pai deles todos, desses estropiados, desses perdidos, desses facínoras, fora o pai dele que lhes dera vida e ele sabia disso, sabia da longa viagem do pai para se tornar asseado, sabia da limpeza moral por trás do fino tracto vocal, sabia dos anos que a aspereza viral demorara a sair, por isso o pai se esforçara tanto para que ele não fosse.

Quis descer ao abismo, quis ver o que eles eram e viu. Descer ao abismo e ver e conhecê-los com as mãos, conhecê-los com os dedos, senti-los pular no que são.

Início do conto- O homem que tecia ventos

Início do conto- O homem que tecia ventos

No princípio do mundo não havia ventos, nem brisas, nem furacões, nem tempestades. O tempo caia como um pesado reposteiro. ou uma casa caiada de branco inundando monótono os dias todos.

Resultou dos esforços de um só homem (eu sei é surpreendente) a criação de toda a rica tessitura de ventos e afins. O mais extraordinário é que esse homem não só criou os ventos, mas também a possibilidade de, a partir dos ventos já existentes, se fazerem novos ventos.

Comecemos pelo início. A preguiça foi a razão porque o ar não compareceu, no início dos tempos, ao chamamento de Deus. Deus havia identificado o segundo exacto em que o mundo ia começar e o ar não estava lá. Deliciara-se Deus a criar uma performance a todos os títulos memorável, que marcaria indelével a memória dos homens ao transformar o ar em vento e o ar deixa-se ficar a dormir no ninho de algodão onde dorme todo enrolado e não apareceu. Ele há coisas que não lembram a Belzebu.

Deus, intimamente furibundo, fez por se acalmar e esperou um pouco, razão por que o mundo nasceu com três segundos de atraso em relação ao plano previamente estabelecido, o que Deus nunca perdoou ao ar.

Passados três segundos, deu Deus início à construção do mundo da forma que os livros sagrados tão bem documentam.

Após ter concebido o mundo, Deus não telefonou, mas ficou a pensar numa forma de tratar de uma vez por todas do mandrião do ar que lhe havia trocado as voltas.

O ar, vendo que o todo-poderoso não vinha, nos dias seguintes ao seu espalhanço, às falas com ele e sabendo como Deus era rancoroso, começou a magicar no pior. Temendo pela existência, não viu outra coisa a fazer senão enfiar-se no infinito e esconder-se lá. Se depressa o pensou mais depressa o fez, enfiou-se no poço do infinito e percorrendo distâncias incríveis em poucos segundos escondeu-se num fundo tão fundo que nem Deus daria por ele.

Soprou de si algum ar, algemou-se a um e a outro lado das paredes do infinito e entrelaçou o meio de si a si próprio, fazendo-se um colchão bem no meio do nada, com a outra parte de ar que havia separado de si, concebeu uma espécie de alcofa e enrolou-se num novelo onde coube todo dentro, suspirou fundo, fechou os olhos e deixou-se repousar com um sorriso misterioso, entre o sorrir da Mona Lisa e o da criada ladina que viu Tales cair no poço enquanto distraído observava as estrelas, preso por um mosquetão às paredes do infinito.