Poetas Russos – Manuel de Seabra


Pertencem a esta antologia poetas do início do século XX, do tempo da revolução russa. O simbolismo de Blok, o acmeismo de Ana Akhmátova, até ao futurismo de Maiakovski. Não figuram neste livro Khlebnikov com a poesia transmental e o movimento zaúm, nem Mandelstam. Figuram dois poetas já um pouco posteriores: Okudkava e Ievtuchenko.
De entre todos os excelentes poetas que Manuel de Seabra convocou saliento dois muito diferentes que aprecio enormemente.
Marina Tsvetaeva estava do lado do exército branco aquando da revolução de 1917. Viveu uma vida trágica devido à perseguição que lhe foi movida pelo regime estalinista, foi obrigada a exilar-se, voltou à Rússia, viu morrer de fome uma filha e o marido ser fuzilado. Perseguida pelo regime e sem conseguir trabalho acabou por se suicidar. Perpassa pela sua poesia esta existência angustiada, amargurada, mas a sua poesia é muito mais do que a sua biografia. Desde logo Marina olhava-se de forma distanciada, daí a ironia que se descobre na sua poesia, e depois, era uma mulher de grande personalidade que recusou fazer de si o que quiseram fazer-lhe e mesmo nas condições mais penosas foi capaz de viver, amar, escrever e sonhar. Não conseguiram fosse menos humana e menos rica, não se deixou amputar, foi uma mulher livre. Não é que não esteja bem patente e vincada na sua poesia a perseguição que lhe moveram, mas Marina fez levedar tudo esse material poético e introduziu a sua condição de mulher na poesia escrevendo poemas de amor apaixonado na sua voz original, em versos lapidares, como se vê no primeiro poema de Marina nesta antologia, breve, apenas duas estrofes, onde se patenteia a vida de alguém que nasceu rica e nobre e viveu na pobreza, – não pretende nada, não tem criada e não precisa de comer – como quem diz, de essencial não me tirastes nada, e paradoxalmente assegura ao amado: “sou o teu sétimo céu”. Ela que perdeu tudo, que é nada, é a paixão, o sétimo dia, a recompensa do amado. E continua como se vivesse numa dimensão mais elevada, “aí na terra”, o mundo deu-lhe a vida e a morte, tudo e nada, o que os homens mais amam e o que mais temem: “dinheiro e mós penduradas ao pescoço”. Mas por mais que lhe tirem continuará a ser grande, até pelo orgulho com que enfrenta as vicissitudes, e por ser quem é, Psique, aquela que pela fidelidade do seu amor venceu todos os perigos, corpo de ave e cabeça humana, ser de uma dimensão mais elevada para quem as vicissitudes só servem para mostrar a grandeza. A tragédia é parte necessária da grandeza, ela continua a ser o sétimo céu, a recompensa máxima; psique.
Maiakovsky, ao contrário de Marina abraçou desde o início a revolução. A revolução que esperava. Ele declamou os seus versos para o povo nas praças de muitas cidades, como identifica precisamente no poema desta antologia. Estava na vida e na revolução como artista, mesmo quando se colocava ao serviço da revolução. Nada diminuiria a sua arte, era com ela e através dela que era o que era. Maiakovski foi sempre um homem livre que se pôs ao serviço daquilo que bem entendeu, mas sempre livre. Quando lhe diziam os seus poemas eram demasiado elevados para o povo, ele respondia que era preciso elevar o povo e não diminuir a sua poesia.
Não deixa de ser significativo que não tenha sido a revolução a conduzi-lo ao suicídio, mas o amor ou a perda do amor. Maiakovski não se deixou reduzir, viveu intensamente, foi um habitante da poesia, e morreu porque amou demais, ou talvez porque o amor fosse já insuficiente.
Maiakovsky tem nesta antologia o poema: “a nuvem de calças”. É um poema extenso e é possível observar-se nele grande parte das suas características.
A força, a arrogância, a provocação com que Maiakovsky se atira ao mundo. “Vou atiçar com o coração sangrando/ rirei até fartar, mordaz, e desfaçado”.
A força da sua juventude, de sua diferença “não tenho uma cã na alma”, o espírito que o anima é outro. A juventude -22 anos- é uma das razões da sua força. Grandeza, diferença- fala do alto da sua juventude, a juventude é um bem, um ganho, uma virtude. Ele é todo lábios (…).
O que canta?
A força, a luta, a revolução, o povo, o pecado, os perdedores. A urgência de construir um mundo novo através da acção, das mãos, da vida real, de toda a gente unida e forte e lutadora, grita contra a beleza que se esconde em casa, é mais bela a fealdade da rua, “há amor nas almas dos marcados das bexigas”.
O poeta da vida, da revolução, das perdas reais, “um prego no meu sapato é mais terrível que a imaginação de Goethe” e “melhor que orações são artérias e músculos”.
Canta a fé em si e na revolução e no povo. O poeta é arauto e cumpre a sua função pelo povo e pela revolução, ama o povo, mesmo que este não o compreenda e não corresponda.
É preciso fazer a revolução sem contemplações, sem ternura, sem perdão. Grita: “Esmagai-os/Nós, os fortes, de passos largos”.
O poema vai entrelaçando histórias umas nas outras num rimo avassalador, interpolando as diferentes situações com um ritmo alucinante, e desfiando imagens arrevesadas, surrealistas, provocadoras, inovadoras, “o rosto bexigoso da chuva”.
Depois da história do seu amor com Maria, o sujeito poético revolta-se contra um tipo de “poesia de lágrimas e flores”.
Este livro permite um primeiro olhar sobre a grande poesia russa. É um interessante aperitivo para autores que, em si mesmos, são um faustoso almoço.

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