Harold Bloom – O Cânone Ocidental

Se me fosse pedida uma frase síntese sobre este livro diria, não uma, mas duas. Um livro com qualidades. Um livro a que dá gosto voltar. Esta segunda, como é óbvio, está inevitavelmente ligada à primeira. São muitas as suas qualidades, desde logo a liberdade de exposição, o ataque ao que não aprecia de forma séria e rotunda, a ideia da desigualdade de valor entre escritores, a defesa do fenómeno do estranhamento como forma de se sentir que se está perante um grande obra, a sua perspectiva sobre a influência de Shakespeare, a enorme erudição e o contacto profundo com as obras. Estas qualidades de raiz perpassam como seiva por todo o livro e são a alegria por onde o pensamento respira.
Outro dos seus conceitos interessantes é o de ansiedade da influência, conceito complexo que não vou definir porque seria tarefa inglória e arriscava-me a dizer disparates – posso dizer que é um conceito central deste autor, é muitíssimo abrangente e apresenta várias faces, desde a mais óbvia – a grandeza de um autor que se estende pelo tempo adentro em relação aos autores seguintes que se formam à sombra desse autor e que, inevitavelmente, necessitam para se construir de distanciamento. Mas esta é apenas uma das dimensões do conceito ansiedade de influência que me parece tem uma profundidade intelectual e até emocional que ultrapassa muito isto que disse. De qualquer modo, creio que é impossível os grandes escritores não se medirem com os grandes escritores anteriores, até para se refazerem de outro modo, o que nunca esconde a influência desses outros autores, mesmo quando os escritores mais recentes fazem desabrochar de outra forma essas influências. Enfim, qualquer autor tem que travar as suas lutas para se construir como autor.
Bloom analisa vinte seis autores absolutamente canónicos, segundo ele, da literatura de sempre.
Eu não li o livro de seguida, há uns meses atrás tinha lido uma parte, vi-me obrigado a parar, e agora voltei e aproveitei, não só para ler o que me faltava, como para reler alguns autores, e voltei a sentir o mesmo agrado pela erudição, fluência da escrita e análises apresentadas.
E aqui faz sentido a segunda frase com que iniciei a minha resenha, não é um livro fácil, nem em quantidade nem em qualidade, pelo que ler e reler é agradável, estimulante e torna-se quase necessário, diria indispensável.
Depois, claro, são quarenta anos de leituras, de pensamento, de analise e de escrita de Bloom sobre estes autores e suas obras. Este livro grande é pequeno para a qualidade dos autores escolhidos e para o que poderia ainda ser dito, e isso também faz deste um grande livro.
Quanto à sua análise, é coerente com as suas ideias, explicita e relaciona autores de uma forma genial, é profundo e enriquecedor, no entanto, creio que talvez exista, por vezes, uma certa redução da obra dos autores de modo a poder acertar a sua teoria de ansiedade de influência influencia com a obra estudada. Por exemplo, diz de Pessoa que “Pessoa (…) é Whitman renascido, mas um Whitman que dá nomes separados a «o meu eu», «o eu verdadeiro» ou «eu, eu mesmo», e «a minha alma», e escreve maravilhosos livros de poemas para os três, assim como um volume à parte com o nome de Walt Whitman.”
Não sei se Pessoa será só isto. Bloom também não diz que é só isto, mas analisa-o fortemente deste modo. Eu diria que há mais Pessoa em Pessoa. Talvez até haja mais Pessoa que alguma vez em algum Whitman sob certos aspectos, mas isso é, evidentemente, discutível.
É interessante conhecer as perspectivas e análises deste autor e até confrontar com outras perspectivas e com as nossas leituras sobre as obras em questão. Vale a pena. Um grande livro para ler, reler e confrontar.

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