Final do conto – O livro

E o rapaz viu-se prontamente agarrado pelos guardas e enclausurado nas masmorras do palácio acusado de mentir ao rei.

O rei mandou imediatamente os seus arautos proclamarem em todos os sítios centrais da cidade que o forasteiro recém chegado, vindo ao reino com o intuito de usurpar o poder havia sido preso. A partir daquele dia as patrulhas de soldados armados até aos dentes que patrulhavam a cidade e as zonas fronteiriças foram reforçadas como se um ataque ao reino estivesse eminente.

Zangado com o que tinha acontecido o rei decidiu ler o livro todo e publicitar o que lera para que os habitantes do reino não se deixassem enganar por charlatães, queria que mesmo os analfabetos (que eram todos), conhecessem exactamente o que dizia o tal livro, e assim, nos muros se escreveu o que o rei não sabia o que fosse, uma vez que era incapaz de identificar uma letra do tamanho de um camião, nem queria saber, porque ler em nada contribuira nunca para a sua felicidade, felicidade essa que toda a vida fora muita e variada, mas oriunda de outro tipo de fontes que não propriamente os livros.

O tempo passou, as fronteiras do reino continuaram tão incólumes como antes, e os habitantes do reino foram esquecendo o forasteiro que continuava preso nos calabouços reais. Sem nada que fazer o rapaz pediu ao rei o obséquio de lhe emprestar os seus próprios livros, agora confiscados, para ler e assim passar o tempo. A primeira reacção do rei que estava decidido a obrigar o rapaz a viver a sua vida na cadeia até morrer foi negar-lhe essa pretensão, mas depois zombeteiro entendeu que podia aproveitar a situação a seu favor, depois de muito pensar, respondeu, sim senhor o faria, porém, com uma condição: o rapaz leria os livros em voz alta e todos os habitantes do reino podiam assistir à leitura.

O rapaz sentiu-se profundamente humilhado com a resposta, mas passados alguns dias, nasceu nele uma certa exaltação, como quem decide beber o copo de fel até ao fundo, lembrou Dostoievky que, num contexto terrível, amarrado à secretária  por um contrato humilhante, e sem dinheiro, que o obrigava a escrever sem parar e tinha cláusulas punitivas que o afundariam no maior dos abismos se não entregasse os manuscritos dentro de prazos apertadíssimos, escreveu algumas das obras maiores de sempre da literatura; assim, com o mesmo sentimento de orgulho, aceitou ler nas condições humilhantes propostas pelo rei.

O rei veio assistir à leitura do rapaz, o que provocou uma verdadeira avalanche de visitantes que ficaram horas de pé a ouvir o rapaz ler.

Todos sabiam de fonte segura que o rapaz não sabia ler, por isso, ainda não tinha começado a ler e eles já sorriam, mas assim que começou a ler começaram a rir todos ao mesmo tempo, e a tudo o que dizia achavam graça porque sabiam perfeitamente era tudo inventado. Aliás, bastava-lhes olhar uma vez o rapaz, o corte de cabelo, a maneira de andar, de vestir, de sorrir, o cenho franzido, e era mais do que suficiente para o saberem analfabeto, não teria sido necessário sequer o rei ter-lhes dito, eles sozinhos chegariam logo lá, as pessoas neste reino eram tão inteligentes que o conhecimento era nelas automático, saia-lhes de dentro, é impossível dizer tudo o que sabiam logo tanto era, estava-lhes dentro das almas, não precisavam fazer nada, vomitavam saber, era tanto saber que até ultrapassava o conhecimento.

A partir daquele dia, imensa gente fazia fila para ouvir o rapaz ler e rir à gargalhada dos disparates que dizia. Depois, um dos mais inteligentes empreendedores do reino, apercebendo-se do sucesso das leituras, vendo que tinha ali nas mãos uma mina de ouro, solicitou ao rei, mediante um determinado montante claro, fazer uma gestão privada desse bem público. A partir desse dia na cela do rapaz foi colocado um banco ao meio, bem como uma luz a iluminar o livro, microfones foram integrados estrategicamente de maneira a que as palavras do rapaz se ouvissem claramente no exterior e foram colocadas cadeiras confortáveis para o público assistir à leitura. O empresário cobrava três centeiros por entrada e a afluência nunca mais parou mais de crescer. Cartazes publicitários em toda a cidade diziam: venha rir que rir faz bem à alma, ao coração e ao cérebro. À noite, depois da ceia, à tarde, depois do almoço, ao fim de semana após a sesta, venha rir, venha ver o analfabeto que tem a mania que é mais do que nós, o analfabeto que diz saber ler, venha ver o mentiroso compulsivo, venha congratular-se por viver num reino tão justo que os mentirosos estão presos, venha rir-se deste indivíduo connosco. Venha ver como é justo o nosso sistema judicial. Podemos ter ladrões livres, mas alguém que se ache mais do que nós não está livre de certeza, venha rir de quem quer rir-se de nós.

O rapaz passou os restantes anos da sua vida a ler.

Primeiro só lhe davam romances de aventuras para ler. Mais tarde, com o pretexto de que pretendia conhecer melhor a natureza humana, solicitou livros de desenvolvimento humano, psicologia social, psicologia da linguagem, sociologia da família, da educação, filosofia moral. Inicialmente o rei considerou esses livros indignos de serem lidos a pessoas de bem e não deixou o rapaz lesse livros tão obscenos. Mas um dos vizires, homem supremamente inteligente, lembrou que o rapaz não sabia ler pelo que esses livros não podiam ser nem boa nem má influência para ninguém, uma vez que o rapaz inventava o que lia e, também, ninguém acreditaria no que lesse, todos sabiam que tudo quanto dissesse seria falso e risível.

Acabou o rei por assentir, e foi mesmo um dos primeiros a assistir às primeiras pseudo-leituras do rapaz sobre esses assuntos científicos e foi até dos que mais riu. O rapaz lia a as características dos vários estádios de desenvolvimento humano, dizia coisas completamente absurdas sobre as características de cada um desses estádios, por exemplo, sobre a adolescência, sobre a entrada na escola, sobre a entrada no mercado de trabalho, chegava a dizer que os jovens tinham ideias pouco reais sobre o que iam encontrar nos seus primeiros empregos porque nunca haviam efectivamente trabalhado, dizia que os mais velhos se questionam sobre o valor da sua vida. Falava em nomes como Erikson, Bandura, Vigotsky, que todos sabiam perfeitamente serem inventados. Sempre que o ouviam ler o nome de algum autor atiravam-se ao chão sem conseguirem parar de rir. Não conseguiam mesmo parar, Vigotsky, repetiam eles, as lágrimas a caírem pelo rosto abaixo de tanto riso. Era tão engraçado. Quando o rapaz dizia que a violência sobre as crianças afecta o seu desenvolvimento intelectual e emocional, eles riam-se, e para gozarem espancavam os filhos que traziam com eles para assistir às leituras, e mostrarem assim o que pensavam do que ele dizia, como se fossem bêbedos a quem um médico afirmasse que o álcool fazia mal e eles para mostrarem ao médico o que pensavam da sua falsa ciência se pusessem a beber um garrafão à sua frente, como se fosse ao médico que estivessem a insultar e como se o médico fosse obrigado a defender a medicina e como se a medicina precisasse da defesa do medico.

Os espectadores que vinham vê-lo ler riam como perdidos do que ouviam. Que grande mentiroso diziam olhando uns para os outros. São só patranhas, garantiam.

Tanto se riam e tão estranho e falso achavam quanto ele dizia que um dia o rapaz lhes disse: Passais os dias a insultar-me porque achais que invento o que leio, e achais mais verdadeiro o conhecimento que tendes, então, porque não abris vós um livro?, porque não ledes qualquer coisa?, assim, já poderíeis confrontar o vosso conhecimento verdadeiro com o meu conhecimento falso. Em tantos anos que levo a ler, e que vós levais a ouvir-me, sempre com a certeza absoluta da vossa parte de que, só por existirdes, tendes um conhecimento muito mais certo que o meu, nem por um momento vos passou pela cabeça lerdes vós algo sobre isto que digo?, estudar um pouco estas matérias?, se quereis realmente rir, porque não confirmais?

Nesse dia, quando o rapaz falou assim, vários ouvintes tiveram que ser hospitalizados com falta de ar por tanto rir. Olha eles precisarem de aprender qualquer coisa, eles que sabiam tudo, era o máximo aquele rapaz.

Na noite em que cortou os pulsos com papel Bíblia, o rapaz deixou escrito a sangue nas paredes da sua cela: neste reino ninguém é mais inteligente que o burro.

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