Continuação do conto- O livro

Qualquer indivíduo que visitasse o reino, independentemente de idade, género, profissão. O potencial criminoso, como o rei não cessava de sublinhar aos seus súbditos em longos discursos anuais de mais de seis horas, estava a chegar, a sua vinda era eminente. Disto o rei não tinha dúvidas, era preciso saber apenas quando chegaria aquele que pretendia usurpar-lhe o poder áquele desterro.

Todos os dias o rei questionava em vão os seus olheiros que tinham como missão zelar pelas fronteiras do seu vasto território, mas ninguém se aproximava daqueles territórios.

Por isso, soou tão estranho que um dia o olheiro do lado norte informasse aflito o rei de que um jovem se aproximava da fronteira, o olheiro deu a notícia aproximadamente um mês antes do forasteiro surgir na cidade, tal a vastidão do território.

Em todo o reino houve uma grande comoção. A novidade circulou, os habitantes ficaram ansiosos, sem saberem muito bem como agir porque, nem mesmo os mais velhos entre os velhos, haviam vivido semelhante fenómeno em suas vidas, é que não se tratava de um dos velhos mercadores já conhecidos, era um forasteiro que ninguém conhecia. Todas as manhãs se juntava uma enorme fila de habitantes a mirar o forasteiro através dos potentes binóculos. Um a um puderam ver-lhe o rosto, mas ninguém o reconheceu. Todos tinham curiosidade em saber o que o forasteiro vinha fazer ali naquele fim de mundo onde ninguém há mais de sessenta anos, muito antes do rei ter sido coroado, se aventurava.

Entretanto, os dias foram passando e, num belo dia, rebentou por todo o reino a notícia de que o forasteiro havia chegado.

Era um dia ameno e alegre esse em que o jovem vendedor de livros chegou à capital do reino, o sol brilhava na seu azimute e o forasteiro, que trazia um burro carregado de livros, levava com frequência um pano à testa para limpar o suor.

Assim que chegou, procurou o mercado, na praça central, para aí expor e vender a bom preço os livros que trazia. Colocou-os bem à vista pendurados nos barbantes. Viu com agrado como toda a gente no mercado parava para folhear e ler atentamente os livros. O rapaz estava encantado por deparar num lugarejo tão longínquo com gente tão dedicada às letras. A multidão, por sua vez, parecia maravilhada com um livro muito colorido, maior que todos os outros a que o rapaz dera maior visibilidade por ser o mais belo e mais caro de todos os livros que trazia e que à luz ganhava diferentes tonalidades de cor. Mas a manhã passou e apesar do interesse manifestado, ninguém comprou ao rapaz um único livro sequer. Estranhou o rapaz tal comportamento. Não atinava qual fosse o defeito. Porque pareceriam tão entusiasmados se não queriam comprar nada?

Sem saber o que pensar disse para com os seus botões que, ou o mal era dos livros que não atraíam os visitantes, ou dos visitantes que eram demasiado forretas para comprar um livro que fosse. Para atrair o público e promover as vendas tirou do cordel o livro grande que tanto atraía o público, e durante uma hora dedicou-se à sua leitura. Por cima do olho pode ver como em pouco menos de dez minutos a enorme plateia de público cresceu circundando-o, e a gente que tinha vindo para o ouvir ler ocupava já todo o mercado que tinha deixado de vender naquela manhã porque todos os que ali estavam se haviam sentado à sua volta a ouvi-lo ler. Entre aquela afluência de gente no mercado estavam os vizires do rei que procuraram inteirar-se do que se passava. Logo que foram informados de que o recém chegado lia o livro mais belo que alguma vez haviam visto em suas vidas logo correram a informar o rei.

O rei viu naquela informação o pretexto perfeito para trazer o rapaz até si e inteirar-se dos seus verdadeiros intuitos.

Assim, mandou chamar o rapaz ao seu castelo sob o pretexto de que pretendia comprar-lhe o belo e misterioso livro das mil cores.

O rapaz, apesar da sua juventude já tinha visto muito mundo, muitos e diferentes reinos e não se engasgou quando os guardas lhe disseram ao que vinham. Limitou-se a embrulhar os livros e seguir como o burro atrás dos guardas, altaneiro e descontraído.

Uma vez no palácio o rei, como era de bom tom, fê-lo esperar muito tempo. Recebeu-o, por fim, ao final da tarde, sentado no seu trono de diamantes, e ordenou lhe mostrasse o livro reluzente.

Hum, disse, olhando a capa onde se via um elefante.

Gosto muito de livros sobre animais da selva.

O rapaz explicou: este livro narra a viagem de um elefante do reino de Portugal ao reino de Áustria. Chama-se viagem do elefante e aconteceu no século XV.

O rei agastado por ter sido corrigido perguntou-lhe duro, mas tu achas que não sei ler?

Não disse tal, real senhor, respondeu o jovem afivelando ao rosto um ar de candura.

O rei mandou um dos seus vizires abrirem o livro numa página à sorte e pediu ao rapaz que lesse. O rapaz olhou para o livro e para o rei entre espantado e receoso e leu: a pele do elefante-asiático, e este é um deles, é grossa, de cor meio cinza meio café, salpicada de pintas e pelos, uma permanente deceção para o próprio (…)

O rei não o deixou continuar, mandando-o calar imediatamente.

O rei tirou o livro ao rapaz e leu: os espíritos das doninhas atravessam o sol rumo às cataratas de Niagara.

O rei bateu com o pé no chão e mandou os seus dois vizires fossem buscar o seu bastão porque fazia questão de bater com o bastão no chão. O que fez, após o que pediu aos dois vizires, homens muito considerados no reino pela enorme inteligência e habilidade empresarial, para lerem o mesmo trecho que ele havia lido.

Os dois vizires, que eram analfabetos, como todos naquele reino, repetiram religiosamente as palavras do rei, como já haviam antecipadamente combinado com este.

Ficou o rapaz muito aflito. Não sabendo que mais dizer e temendo estar em maus lençóis, disse: bem, é possível haja diferentes interpretações do mesmo texto, é possível ambos tenhamos razão.

Saltou logo o rei irado, mas sorridente e forte como um leão.

Seu mentiroso, vê-se logo o que és. Nem és capaz de manter as tuas mentiras, ah!

Alguma vez alguém no mundo se soubesse ler e lesse o que está no livro dispensaria a verdade para concordar, mesmo que fosse com um rei? Nunca.

Mentiroso. Prendam-no. Vai para as masmorras para aprender a não mentir a um rei. Onde já se viu?

Quem mente nisto em que mais não mentirá?, este homem é um perigo para o nosso reino.

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