O Colosso de Maroussi de Henry Miller

Neste livro, Miller narra a sua viagem pelas ilhas gregas, as impressões e as peripécias que se vão sucedendo, enquanto dialoga com a vida em sentido de criação que, segundo ele, está presente nas ilhas gregas – vida a criar-se, vida em movimento, contraditória e imprevisível.

Não sei se é o melhor dos seus livros, como ele próprio afirma, mas é sem dúvida um dos livros em que é mais explícita a forma como luta por apanhar todos os espacinhos de vida e sugá-los garganta abaixo.

Gosta da pobreza, da poeira dos caminhos, da luz, daquelas ilhas em que as pessoas são reais, vivas, leais, alegres, verdadeiras, astuciosas, sólidas, amam, comem, bebem, falam, são capazes de pensar, reflectir e contar histórias.

A descrição que faz de Epidauro, Corfu, Micenas é tão forte, são tão intensos e grandiosos os sentimentos que descreve, que desperta em nós a curiosidade por sentir algo tão belo, único e poderoso.

É a vida na sua multiplicidade que interessa a Miller, ele vai ao encontro do esplendor da vida, vida e só vida, vida, grandiosa vida, onde quer que a encontre. E não é nada importante saber se concordamos com o que diz da civilização, ou da pobreza, ou da Grécia, ou de Nova Iorque. Importante é ver como Miller salta impertinente sobre tudo o que é vida e a saúda, e vê nos gregos, aqueles que os deuses aperfeiçoaram à sua imagem e semelhança. E esquadrinha-se a si próprio sem contemplações, não dá de si nenhum quadro vistoso, está-se nas tintas, para o que pensemos dele, quer dar uma noção real da sua liberdade, do que gosta e não gosta como ser humano, não espera que se concorde com ele, apenas é, e expõe-se.

Não deixa de ser interessante ver como não só é preconceituoso, mas faz questão de o mostrar alegre e livremente, Miller diz que é bom sermos preconceituosos como rufias, elogia a pobreza, indigna-se contra a civilização e as grandes potências. É uma questão pessoalíssima, tem a ver com as suas emoções, e não com algo certo ou errado. É evidente que com a mesma força com que Miller ataca a civilização se pode elogiar a civilização, mas a beleza de existir está aí, no facto de sermos capazes de escolher e de decidirmos os nossos caminhos; as nossas escolhas, não são certas, são pessoais, têm a ver com a nossa sensibilidade e temos razões para elas, e Miller tem consciência disso e diz o que pensa, sente e ama, mesmo que isso provoque a indignação dos outros.

Aprecio a escrita clara, directa, hiperbólica, apaixonada, rasgada por metáforas que abrem de luz o ventre dos pensamentos e o inundam de vida, brinda-nos com palavras do outro mundo ao descrever as suas impressões sobre Atenas, Cnossos, Hidra, Esparta, Delfos e outras ilhas dos arquipélagos gregos.

Este livro é a revelação de uma epifania, Miller passa a compreender-se melhor a si próprio e à sua própria vida depois da revelação que recebe da presença daquelas ilhas em si, como se encontrasse naquele espaço geográfico visível a sua verdade interior. Por isso acaba o livro afirmando: “(…) passei a dedicar a minha vida à recuperação da divindade do homem. Paz a todos os homens, é o que eu desejo, e uma vida mais copiosa”.

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