Continuação do conto -O dorso da vida

O rapaz a ser constantemente mil personagens

Enquanto as mãos do rapaz pegam em pesados baldes de massa a cabeça desbrava palavras e dispara-as em todas as direcções, algumas retornam e inundam o corpo do rapaz, a palavra produz a forma como o cérebro a olha, introduz-se, atravessa-o, bóia por instantes suavemente no líquido do cérebro, faz seu próprio caminho destinada a ser texto escrito na cabeça, texto vivo, gera-se e modifica-se perpetuamente, palavras mergulham frescas, como quem salta de trampolim para a água a escrever completamente tudo com a paciência de um beneditino, a desfolhar a flor na palavra, a traduzir as palavras de dentro das coisas, do íntimo da pedra, de chuva -, inundam a calçada-, palavras do amor dos outros, palavras pessoas que passam, desfolha, palavras cola, personagens. Veste-se de palavras roubadas ao corpo, à minúcia dos olhos, à voracidade das mãos e ao ego anafado, palavras sujas, feias, palavras mãos.

De um certo modo gasto de vestir perde tempo a olhar palavras com personagens. Vê que se as olhar através de um determinado ângulo pode interpretá-las, regozija-se. Não é capaz de parar. Inventa interpretações umas a seguir às outras, sempre, sempre, sempre. Tem a doença das interpretações obscuras, obscenas para os actos daqueles que veste, sempre com a mesma lógica, veste-os de cinzento, de azul, dá-lhes vida, inventa-lhes razões, desejos, frustrações, rancores. Palavras começam a falar por dentro de palavras que começam a deixar-se sair loucas, directamente do âmago do ser feito dança. Palavras loucas de sua verdade, palavras que sabem a partir de sua verdade de todo o tipo de pessoas, doentes, nascidas para morrer: foi para isto que nasci?, palavras loucas de pessoas com verdades mentirosas de tudo, esta é a minha bandeira, como quem diz, a minha verdade, só tenho esta verdade, as palavras loucas permanecem curvadas sob o peso dessa verdade, cansa-as a verdade, é muito dura, custa muito tê-la, transportá-la, viver com a verdade dentro de si, verdade pesada, dura, seca, incomoda, mas as palavras vivem a vida toda só com a verdade, não têm outra forma de vida, se fossem obrigadas a viver com outra verdade dura sucumbiam, seria demasiado para elas, acabariam aí mortas como um cão, por excesso de esforço, vivem olhos nos olhos com a verdade de todos os ângulos, verdade com consequências, esta verdade diz de todas as realidades a que está ligada. Também há a palavra que não transmite a verdade, só a carrega, não se sabe do mundo que a palavra diria, é preciso a palavra sofra para que outros sejam felizes, outros que hão-de ignorar a verdade da palavra, não podem saber.

O rapaz, louco, carrega a verdade para que os outros sejam felizes na mentira. Alguns são apanhados pelo âmago da palavra medo que entra às catadupas por eles adentro e tapa-lhes a passagem do sangue. O sangue começa a andar às arrecuas e inunda-lhes o corpo todo de medo.

O corpo da palavra tem medo de caminhar, de olhar, de ver, amar, aí a palavra é um corpo de medo, a palavra louca passa o tempo escondida debaixo do céu e das estrelas, e das árvores de copa alta, na profissão, na amizade, e em algumas obsessões. Esconde-se de todos. O sonho é viver só, possui um íntimo sentido para o medo, descobre todos os tipos de medo, cheira o medo. Esconde-se na familiaridade do mundo, tudo é a sua família, as coisas, as pessoas, as situações, a palavra nunca viu um estranho.

Pode alguém ser um estranho para a palavra?, a palavra sabe o que cada um é por dentro, os olhos das palavras têm fogo que vê, ninguém pode dizer-se estranho. Gostava de um dia encontrar quem ela não soubesse quem é, não conhecesse, mas não existe tal ser, a palavra conhece as pessoas todas do mundo, sabe dizer o desconhecido e onde se o poderá encontrar, as palavras dão a volta aos tornados, afastam-se e não olham ninguém directamente nos olhos, as palavras roubam almas, pedaço a pedaço, ferem o peito de quem encontram, pela cicatriz do peito desaparecem, não se sabe onde viverá a alma imortal da palavra, quando morre fica só o corpo da palavra, em que cemitério se deposita o corpo da palavra?

Palavras que criam continuamente personagens novas.

O rapaz fugia dos bairros pobres pela cabeça, aventurava-se a ler às escondidas em bibliotecas. Não tem medo porque nunca do bairro dele vai ali alguém. Não tem família. Também não tem ilusões, e agora não havia dia nenhum não visitasse os livros que amava. Nunca trazia livros para casa, não pretendia mais do que tinha, nunca deixaria de ser um vadio, e provavelmente se não encontrasse a tempo o amor o seu destino num futuro próximo seria ainda pior, mas era um vadio que amava ler e sonhar, não sabia escrever e por isso não escrevia, passeava pelas ruas a inventar coisas, vivia na cabeça, espaço minúsculo para o tanto que inventava, a sorte era todos os dias deitar ao lixo grande parte do que inventava porque não seria capaz de armazenar tanta coisa na cabeça, não era infinita a sua capacidade de armazenar informação.

O rapaz acaba o trabalho. A cabeça volta ao lugar. O rapaz voa na velha Zundap a sorver palavras de todos com quantos se cruza, cabelo ao vento, a inventar histórias, fica horas a congeminar histórias enquanto voa na mota, adora esses momentos em que torna espessas as palavras, depois vem atrás e repete cadenciado, uma a uma, a burilá-las até as palavras inventem a noite, quando já são capazes de viver corta-as com a tesoura do cérebro e repete para si até dourar, a palavra brilha na noite, coloca-a no pré-tálamo, ali atrás, na covinha e deixa-a ficar. Volta às palavras em bruto e burila-as novamente, doura uma a uma até o mundo se encha de um silêncio leve e firme de cristal. Assim que sente o silêncio o rapaz vem, pé ante pé, inventar as ruas todas, os cafés, os bares, histórias suficientemente sólidas para cruzar com pessoas. Não tem medo as palavras se diluam, fujam, ou se modifiquem, as histórias já estão suficientemente distantes do mundo para serem apesar do mundo, apesar dos outros, com os outros. As histórias dele eram um mundo que não existia antes, dera às palavras uma nova forma de serem história, coisa, faca.

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