Continuação do conto – O dorso da vida

Sem a beleza interior mantém a ingenuidade de olhar o mundo nos olhos a ser-se, existir-se, dizer-se, acreditar-se. A ser no mundo de forma diferente desse mundo, diz-lhe: estou a ser em ti. Não pode acabar bem esta ausência da beleza que prende, esta liberdade de pisar docemente o rosto das coisas, a rapariga sabe que sem beleza caminha para a morte, para o não ser, fala do outro nome de Deus, de possibilidades e de multidão com a ingenuidade que só a grandeza dá, e vê outra vez a possibilidade da construção das coisas, vê surgirem cidades inteiras do nada, jorrar a água da criação pela montanha do pensamento abaixo, ininterrupto, canta por todas as partes do corpo, leva abraçadas ao pescoço as crianças sagradas do futuro, parte-se e reparte-se sem medo, é o milagre vivo do pão e do vinho, a rapariga tem a vida a jorrar das mãos da terra no néctar que cria, dá-se tumultuosamente na sabedoria de criança. Depois, falha em toda a linha, mete a possibilidade da criação das coisas dentro, vive palavras que jorram cimento no circuito inteiro que vai da alma até aos pés a seguir caminhos.

Anda no redemoinho das coisas, na possibilidade do ser, caminha e entra dentro dos outros, dos corpos dos outros, dos olhos dos outros, dentro de casas, carros, edifícios, entra sem beleza nenhuma interior. Toda a criação de palavras desaparece e tem de ser ela a pensar dentro para que algo pense. Já não tem dentro dela o mecanismo de regurgitar continuamente vocabulário, já não assegura o funcionamento das mil bocas que lá dentro continuam a falar, falam para dentro mas ninguém as ouve, nem a rapariga as ouve, apercebe-se apenas do que parece ser um leve mastigar, são as bocas a murmurar em simultâneo, os papos deixam de ser visíveis, nos órgãos há fendas abertas por onde as bocas murmuram sem ninguém ouvir, é no entanto necessário alimentá-las, agora não buscam o seu alimento, não são auto-suficientes, sem beleza interior não pode buscar palavras na humidade da terra, torcer o pano das montanhas e deixar as palavras caírem-lhe no goto. Isso só a beleza interior faz. Só a beleza interior, e essa beleza está em silêncio, a rapariga busca palavras para carregar as mil bocas do corpo dela, alimenta as bocas inventando o que não ouve, mas não consegue produzir mentiras suficientes para as bocas repetirem, não tem mentiras para todas as bocas, vai colando o ouvido à respiração do mundo, mas chega uma altura em que a situação se torna insustentável, as mil bocas comem-lhe o corpo, o rosto, a cabeça, as mãos, os cotovelos, tem medo, deixa de ouvir, fica com menos palavras nas mãos, se insistir morrerá asfixiada pelas bocas peçonhentas a comerem-lhe o corpo encarquilhado, não tem palavras para se defender. A beleza interior torna-se imprescindível, é urgente colar de novo a fealdade exterior no corpo.

E a rapariga vai depressa para o banco de jardim desfazer-se do corpo, ser só alma para que o corpo raivosamente lhe busque a beleza interior no armário onde a deixou ficar, a alma fica a falar com Deus. Deus é primo da alma por parte do pai. Em crianças haviam sido muito próximos porque as mães de ambos (da alma e de Deus) haviam fugido com dois caixeiros-viajantes, por sinal primos, e os pais de ambos tinham por hábito afogarem as mágoas em álcool, Juntavam-se ao fim de semana para se embebedarem que já mais nada havia pudessem fazer, e essa era ainda a maneira de melhor passarem o tempo e esquecerem o sofrimento. Nunca resultava muito bem porque as mágoas sabem nadar.

Ficava durante muito tempo a discorrer com Deus para cá e para lá. Não que Ele falasse muito. Nunca vira aquela criatura abrir a boca para discordar ou concordar com alguma coisa. O seu mutismo era total. Devia julgar que como era Deus não tinha obrigação de ser delicado. A rapariga das mil bocas nunca lhe dizia nada porque Deus era o seu único amigo e não queria deitar tudo a perder. Afinal, ele vinha sempre que ela o chamava. Ela não percebia a razão porque vinha, afinal depois nem se dignava abrir a boca, limitava-se a estar ali a ouvi-la muito circunspecto o tempo todo. A rapariga das mil bocas voltava depois ao banco de jardim, embora soubesse perfeitamente já não ia encontrar Deus. Deus nunca voltava segunda vez. Era escusado pensar nisso. E mesmo vir da primeira era por especial favor, e também porque ela estava a morrer e ele sabia. Em algumas vezes a rapariga chegou até a recear Deus se fosse embora por vê-la falar tanto. Mas Ele nunca fez isso, ouvia sempre a sua diatribe, embora nunca falasse nada e se mostrasse taciturno; dava tempo a chegasse o corpo abocanhando a beleza dela.

Falar com Deus dava outro ânimo à rapariga cujo corpo conseguia chegar à beleza interior e vestir-se. Não estivesse Deus para ali a ouvi-la a rapariga nunca seria capaz de viver sem beleza tanto tempo. A rapariga colava a beleza interior antes dos órgãos, dos rins, fígado, estômago com fita adesiva, muito lentamente de modo a não arranhar, para que as mil bocas se estendessem e começassem a falar, e logo mil palavras lhe saíam do corpo como chuva inundando tudo, fita adesiva nas mãos a colar órgãos, palavras inundam-lhe o corpo todo, inundam-lhe o sangue, nascem-lhe palavras novas na alma, as palavras como lagos vão inundando-lhe o interior até estarem prontas para moer, é preciso cuidadosamente coser as palavras à alma com uma agulha do tamanho de uma estrela. Erguer a palavra esmigalhada e fazê-la atravessar uma agulha e outra e outra por dentro da alma. E essas palavras voam rapidamente. A beleza cria o canal. Ninhos de palavras concretizam a rapariga no dia a dia. A rapariga volta a colar o corpo à alma e a beleza interior cria canal por onde as palavras voam directamente à fealdade exterior do seu interior.

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