Henry Miller- O tempo dos assassinos

Este livro é sobre Rimbaud?
Também é.
É sobre os tempos do tempo, sobre diversas formas de viver, sobre as trágicas dimensões do humano, sobre sobrevivermo-nos, e claro, sobre Rimbaud.
Uma sombria e trágica análise das várias vidas deste poeta precoce, cujas asas permaneceram, enquanto voava, pregadas a uma rocha. Sobre aquele que cantou o poder do homem e do mundo e acabou por se tornar uma pedra tumular vivente, homem de mil desertos, falou num momento para adoptar logo a seguir um silêncio violento, aterrador até.
Miller olha Rimbaud pelos olhos de Rimbaud, a luta que este trava com o homem, com o infinito, com Deus. A forma como sentiu ao mesmo tempo o fogo do infinito e o líquido chamamento da terra e viveu, com um excesso digno de Prometeu, a impossível criação, como as palavras com as quais fez versos mostram. E depois perdeu, perdeu-se, ou deparou simplesmente com o muro da mediocridade e não estando disponível para se vender, optou pelo inferno, ele que havia intuído a possibilidade do Natal na Terra.
Tudo isto nos diz Miller. Fala-nos sobre esse tempo que torna estéril a voz dos mais sábios dos sábios, que silencia todos os cantos e obriga aquele que canta à fuga de si mesmo, esse tempo de assassinos.
Uma das grandes qualidades deste livro, e tem muitas, é pretender, mais do que dar respostas, aproximar Rimbaud do leitor, trazê-lo a nós.
Neste livro nunca se fala de outra coisa que não da vida, da felicidade, da realização, do dia a dia, da forma como devíamos viver, mesmo quando é do material poético que se fala, e isto é assim porque para Miller, como para Rimbaud, a poesia é essencial à vida.
Shopenauher defendia que o mais difícil é dizer com clareza aquilo o que é difícil, Miller faz isso, diz claro o que é complexo e difícil e escreve um livro enxuto, directo, rico, comunica saberes e continuamente faz-nos ir mais longe.
Fico com a impressão que Miller escreveu este livro para clarificar para si próprio as ideias que tinha sobre Rimbaud e obrigar-se a aprofundar, a pensar mais sobre o seu ídolo, a compreendê-lo mais e melhor.
E aqui temos outra qualidade deste livro: é escrito com a enorme seriedade da paixão, aqui, no centro da frieza gelada da razão palpita o fogo do conhecimento intuitivo.
Miller aproxima-se desse génio precoce, bebe e come das suas palavras, enriquece-se com o mistério indecifrável das suas palavras, vê-o ser, percebe da sua sabedoria, do seu mecanismo de autenticidade interior, da sua tragédia e grandeza, sabe que conhecer Rimbaud é deixá-lo voar, é deixá-lo ir, só o pode conhecer quem vier para o perder, é isso que faz Miller, observa o poeta vivo a escrever palavras simbólicas, sólidas como pedras, a embaterem na calçada da própria vida, Miller é grande porque sabe ser pequeno. Tem a capacidade de saber que Rimbaud era um mistério, tanto para os outros como para si próprio. Não é só de Rimbaud que fala neste livro, Miller invoca e convoca outros que um dia clamaram no deserto: kierkegaard, Boehme, Lautréamont, Nietzsche, mundos e mais mundos que nos aproximam mais de um Rimbaud sempre incompleto.
Neste livro, como em todos os livros vivos, tudo está em aberto, e é o leitor a chave que fechará dentro de si o puzzle Rimbaud, cada um terá a sua chave até porque cada um reterá destas montanhas de ideias, conhecimentos e percepções a parte que lhe interessa, a parte com que se debate o seu íntimo.

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