Início do conto – O dorso da vida

A rapariga das mil bocas

A rapariga jogava com a bola transparente e luminosa da vida, ora a cobria em movimentos suaves, soltando espontâneas gargalhadas, ora se deixava cobrir acercando-se da infância com o linguarejar irresistível da fantasia, navegando no pássaro que há dentro das pedras, enlouquecendo palavras de vidro, destemida como os príncipes da chuva.

Mas um dia, há sempre um dia, a rapariga passou a circular dentro da câmpanula da engrenagem da vida adulta, no inóspito e escuro quotidiano onde as palavras vergam sobre a gorda adultície, palavras encharcadas de raiva, violência e morte cortaram a cabeça aos países de sonho de que o seu íntimo de rapariga era proprietário. Palavras enormes como tufões ficaram moídas a lascas de infância desfeita e os olhos enevoaram-se-lhe na fuligem dos dias.

Mãe

A mãe curvava-se a perseguir a sua ninfazinha franzina e doce, danificava-lhe a linguagem dos órgãos, roubava-lhe grafemas, fonemas, falava-lhe com palavras feitas que tapavam a visão, vestia-a de palavras curtas, gastas, ameaçava modificar qualquer lugar criado pela linguagem, a rapariga era um cesto de palavras que a mãe puxava a seu belo prazer, fazendo-a morder o pó com o gancho do cabelo.

Eram momentos felizes para a mãe, sentia-se verdadeiramente livre e feliz quando usava o poder, crescia desmesuradamente em maldade.

O dia em que a mãe fugiu com um caixeiro-viajante foi o mais feliz da filha.

Homem

A rapariga perdeu-se da infância, ganhou um desconhecimento sério e imponente, um homem vestiu-a de uma peça só.

O homem diz: a rapariga é escrava dos tempos modernos, uma das melhores escravas porque não se apercebe verdadeiramente do que é. E eu sinto a doçura do mal, a doçura dos gestos com que destruo a sua vida. Angustia um pouco, não sou completamente insensível, não sou igual ao homem antigo que obrigava a mulher à ignorância. Esse não é o meu natural. Eu sinto, e porque sinto sofro, mas resisto. Fui egoísta e fiquei com ela para mim. Serve-me com fidelidade. E quando me embriago, o que acontece com frequência, possuo-a selvaticamente. Ela chora, implora, mas estou demasiado bêbedo para dar valor aos seus gritos e espanco-a com requintes de malvadez. Magoo-a com sofreguidão. Sofre e gozo mais profundamente. Conheci-a com 16 anos, hoje tem 24. É-me muito afeiçoada. E no entanto sei que a destrui. Sei que poderia potenciar o que é, as suas qualidades, mas em vez disso prendi-a e uso-a sempre que quero, como a um objecto de luxo. Existe para minha recreação. Trato-a como uma prostituta. Tudo o que ela poderia ser quando lhe dei a mão, destrui, a vida para ela perdeu sentido, brilha só para mim. O meu mal é daqueles que precisa de violência a toda a hora para sobreviver.

Um dia a rapariga chegou a casa cheia de papos, o corpo belo transformado numa tapeçaria de mil bocas, medonho.

O homem aterrado abandonou-a e foi buscar outra.

A rapariga amava a sua fealdade, quanto mais repugnante se tornava à vista de todos, mais se amava. Construiu-se do mesmo material com que a queriam destruir, criou o seu próprio bem e o seu próprio mal sem ser colonizada que ela não era nenhuma ilha no meio do mar. Tornou-se a rapariga das mil bocas a cresceram de dentro para fora do corpo e a falarem sem parar, perpetuamente, ininterruptamente o dia todo, as mil bocas do corpo bebiam metade do oceano, a rapariga das mil bocas repete de tudo a última versão do que lhe diz o mundo, não filtra nada, desbobina repetida e rapidamente tudo o que sabe de dentro de si, e tudo o que ouvia nas ruas, nas casas, nos sítios por onde passava, e quando nada mais tinha para dizer, ela dizia aquilo que imaginava, tudo, tudo, tudo, não por culpa sua, mas das mil bocas no corpo, só duzentas bocas tem nos ouvidos, assim que ouve, fala, não guarda nada porque reter informação magoa-a, as bocas começam a comer-lhe a carne, a comer, a comer, a comer, as mil bocas comem a carne da rapariga. O cérebro da rapariga das mil bocas não armazena, a informação chega à cabeça e logo as mil bocarras se apoderam dela e a reproduzem, tecem com a informação aquários gigantes onde milhares de pássaros vermelhos navegam e casas de muitas cores; até tudo desaparecer devorado pelas mil bocas.

O dia a dia enche-se de fios, imagens, representações, interpretações, a tal ponto que a rapariga não mais tacteia o dorso da vida. Consola-se pensando que de dez em dez anos a vida se ergue de novo em toda a sua força inexorável e, com a simplicidade das grandes tragédias naturais, varre tudo, procedimentos, sentimentos, emoções, verdades, sensibilidades, valores, necessidades; varre todo o lixo sem dó nem piedade, deixa limpo o dorso da vida como uma parede branca, edifica uma nova forma de se ser e dizer. A rapariga das mil bocas não precisa de lutar contra o desejo que ninguém a deseja já com aqueles papos enormes, projectados para fora do corpo.

Uma vez por outra a rapariga vira-se do avesso, arranca de si a beleza interior que a infância dela carrega como uma canoa e a fealdade exterior sai com ela, as bocas entram para dentro dos órgãos. A fealdade exterior está suportada na beleza interior, há estranhas ramificações entre a beleza interior fechada sobre si e a fealdade exterior aberta ao mundo, como se o fruto da beleza fosse a fealdade, como se o fruto da fealdade fosse a beleza. Pendura a beleza interior no armário como um casaco velho e sai para a rua com a sua beleza exterior, atravessa as velhas casas, ouve os piropos dos homens minúsculos, fechados em cubículos de ruas.

Sem a beleza interior sente-se leve, pura, de volta à infância, mais que ver o mundo vê as coisas constitutivas do mundo sem a visão de conjunto, a liberdade de não ter visão nenhuma molha-a de felicidade e alegria, vive esses momentos como se fossem eternos e únicos, vive a totalidade do singular que a beleza exterior lhe dá.

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