George Orwell – 1984

Há a literatura, há a grande literatura e há a literatura daqueles que escrevem com os fios do tempo. São pouquíssimos, e têm sempre uma mesma característica: a mais extrema obsessão por um tipo de material literário a partir do qual reconstroem o mundo. Para dar um exemplo simples: Kafka. É aquilo, apenas aquilo e só aquilo, e ser aquilo é ser tudo. No caso de Kafka tem a ver com o super ego, a obediência e a desobediência, a construção de si, o poder e, enfim, a lavagem cerebral a que nos submetem no nosso desenvolvimento, da qual temos, ou não, consciência.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um desses livros que se escrevem no tempo, com o tempo, que é como quem diz com o material que faz o ser humano, uma vez que nós também somos feitos de tempo. Orwell desfaz e volta a fazer vezes sem conta esse tempo que nos faz, impregna o livro desse tempo, do cheiro, do sabor, do gosto do material tempo todo ali, uma e outra vez, esculpido, desmontado, reformulado. É por isso que o seu livro pertence a todos os tempos. Nunca compreendi porque dizem que um autor está além do seu tempo, e ainda menos porque o dizem de forma elogiosa, Orwell não está além do seu tempo, nem quer estar, nem precisa, nem deve, apenas se dedicou a observar, a apanhar e a ver onde iam dar alguns fios que o seu tempo mostrava, estudou-os, tentou percebê-los, desmontá-los, ver além das palavras com que o seu tempo vestia esses fios do tempo, e depois pôs-se a montá-los novamente.
Mil novecentos e oitenta e quatro é o resultado dessa montagem pessoal e literária com fios do tempo que é todos os tempos, e é ainda a natureza humana; por isso, além de um livro enorme e sem cedências, é também um olhar que se detém sobre alguns fios de cabelo do tempo e os dá a conhecer ao leitor; fá-lo de um modo tal que o leitor pode esquecer a história e continua a ver os fios do tempo, poderia ser qualquer tempo porque todo o tempo está impregnado até ao tutano daqueles fios, só que cada tempo a seu modo, e até à pouco nenhuma sociedade tinha ido tão longe na implmentação destes fios, seja no pensamento, seja no modo como nos dizem devemos encarar a vida, seja na forma como as instituições funcionam, seja mesmo no modo como dizem os indivíduos devem ser. É, sobretudo, muito interessante e muito actual esta característica de dizermos aos outros o que é a verdade, de lhes demonstramos que sabemos mais e melhor do que eles o que é a vida, o pensamento, a verdade; esta coisa de achar que o que pensamos é muito mais verdadeiro que a própria realidade, ou dito de outra forma, acharmos que nós é que dizemos à realidade o que ela é e que a realidade não terá outro remédio senão submeter-se ao nosso pensamento.
Pessoalmente, considero este um dos grandes livros de sempre, pelo fogo do pensamento tempestuoso e indomável de que esta história é a explosão feita palavras.

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