Continuação do conto- O homem que tecia ventos

O ar

Esta ideia insólita surgiu-lhe ao ver a velocidade supersónica com que as mulheres teciam, a velocidade galvanizou-o, não teve mais nada, roubou uma agulha de tricôt, subiu a montanha e mergulhou no infinito, mal se viu lá dentro do túnel branco e comprido começou a tricotar no nada manejando as mãos a toda a velocidade como via as mulheres fazerem, rápido, sem parar, sempre, infinito fora. Chegado ao local onde o ar ressonava a plenos pulmões, julgando estar a espetar a agulha no infinito, espetou-a no ar que gritou de dor e começou logo ali raivosamente uma rabanada de vento capaz de levar tudo à frente, o que fez o homem que tecia ventos dobrar-se e desdobrar-se convulsivamente, enquanto ia deslocando quase sem querer do infinito o ar atmosfera fora sempre a tricotar, apesar da insólita situação em que se via. Até que de repente se viu atirado rabanada de ar fora, uma e outra vez, contra o espaço mais longínquo, mas agarrou-se sempre com ambos os braços ao pescoço daquele ar ainda sem nome, mantendo a agulha de tricôt espetada no ventre do ar enquanto se esforçava por não cair, o que a breve trecho, e apesar de todos os seus esforços, haveria de acontecer, se não lhe tivesse ocorrido prender-se com o cachecol que envergava ao pescoço ao ar. Assim, preso, conseguiu em poucos instantes não só domar o ar, mas conduzi-lo e levá-lo para a sua propriedade onde, depois de abrir as portas com o comando universal que trazia no bolso, o enfiou todinho na garagem que havia construído para guardar as alfaias agrícolas, e onde o ar ficou aprisionado e, por fim, calmo. Mais tarde, criou um enorme curral coberto para o ar aí poder viver à solta. E foi ali que o homem criou os primeiros ventos à imagem daquela primeira revoada de vento que o atacara e não cessava de querer reproduzir. Durante muito tempo admirou a forma como via o ar unir-se e desunir-se, distender-se, ganhar e perder volume. Ficou curioso e pôs-se algumas hipóteses, mas não sabia se os ventos tinham uma só forma de acção, ou se podiam agir de maneiras imprevistas, e que maneiras de agir imprevistas seriam essas. Continuou à espera, a observar, assim que viu um pedaço de ar considerável separado dos outros, enfiou-o numa bacia de água, tricotou-o rapidamente enquanto rodava a bacia, de tal maneira que o ar acabava sempre por se distribuir criando áreas de maior e menor quantidade de ar sobre a superfície. Enquanto fazia este mister, verificou havia, mesmo que nada movesse, uma permanente deslocação de ar para as zonas onde a quantidade de ar era menor, preenchendo sistematicamente esses espaços, originando o ar ventos para chegar mais rápido ao sítio a que queria chegar. O homem julgou perceber ser este um dos modos de acção do ar e resolveu pô-lo em prática na atmosfera.

Homem viajante

A partir desse dia tornou-se um viajante incansável, sempre a transportar os pequenos ventos para todo o tipo de partidas do mundo, levou o ar aos sítios mais inacessíveis. De manhã, escondia o ar nos bolsos da jaqueta e das calças, às vezes levava ainda algum junto ao peito, e metia-se dentro do infinito, calcorreando em pouco tempo o mundo inteiro. A primeira viagem foi aos pólos a deixar lá pedaços de ar. Mal o largou na direcção da linha do equador, o ar transformou-se em vários ventos que logo ganharam forma e força. Alguns houve que seguiram caminho para outras paragens, enquanto outros aninharam-se nas zonas polares e começaram a soprar a partir dessa zona, retornando a esse espaço como a uma casa, e aí se fixando. Chamou-lhes ventos alísios.

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