O rapaz livro

O rapaz ainda não sabia ler e já escondia o rosto atrás de um livro. Tudo começou com a obsessão do rapaz em usar pendurada ao canto da boca uma fralda, para desespero dos pais, ansiosos por arrancar-lhe aquele apêndice de matéria suja, velha e infectada. Levados pelo desespero, vendo o tempo passar e o rapaz livro não dar mostras de se querer separar do pano cada dia mais enodoado, decidiram, uma noite, entrar subrepticiamente no quarto onde o rapaz dormia e arrancar-lhe o pano da boca. O rapaz- livro passou os dias seguintes, ora a revolver tudo em busca da fralda, dominado por uma ira imensa, ora permanecendo prostrado no chão horas a fio, só se vislumbrando vida nos olhos vermelhos de tanto chorar.

Já pensavam os pais devolver-lhe o pano, deteriorado e velho, mas limpo, quando, com grande alegria, o viram apreciar um livro para colorir que a mãe usou para esconder o rosto. Atraído pela situação, o rapaz livro repetiu o gesto, ora com um, ora com outro livro. Os pais, felicíssimos, pensaram estar a promover um precoce gosto pela leitura, só se apercebendo que o rapaz havia simplesmente trocado um vício por outro quando o viram colar o livro ao rosto e não mais o retirar. Tentaram reverter por todos os meios a nova adição, em vão, o rapaz livro usava já o livro para realizar todo o tipo de coisas. Como lhes explicou o psicólogo a quem recorreram era a forma de evitar o contacto com os outros e defender-se de uma enorme inibição social. Numa fase inicial usava o livro como as senhoras o leque, colocando-o simplesmente sobre a cara porque ser visto de cara descoberta lhe provocava angústia. Quando era forçado a sair, só cobrindo o rosto o fazia.

Este comportamento, além do desconforto social que provocava, cansava os braços do rapaz que se via obrigado a mudar constantemente o livro de mão. Assim que chegavam ao destino, o rapaz livro verificava sub-repticiamente se não se encontrava ninguém por perto, e só então condescendia em aumentar a distância entre o rosto e o livro.

O livro funcionava como defesa contra o mundo, bastava-lhe ouvir um ruído, ou os passos de um qualquer desconhecido e o livro voltava imediatamente, qual sentinela, ao seu posto, colado à cara, e dali não saía mais.

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