Camilo Pessanha, Clepsidra

Poeta delicado, subtil, que se vai deixando ir molemente, lentamente, suavemente, até ao fim.
Tudo concorre para a morte, tudo diz não vale a pena: não respireis, não respireis.
Apesar da brevidade do livro são diversos os temas tratados: sonho, tempo, memória, água, morte, tristeza, dor.
O fim, a desgraça estão presentes desde o início de vida: eu vi a luz em um país perdido. Leva ao limite a obsessão pela morte, pelo fim e uma certa crueldade consigo próprio só o meu crânio fique/ Rolando, insepulto, no areal/
Mas a dor é vivida de forma contraditória porque embora o poeta procure afastar a dor, no entanto sem ela o coração é quase nada, é como se só na dor se existisse realmente, portanto, afastar a dor seria não viver, só na dor, esta falta de harmonia se vive realmente.
O poeta associa à paisagem o seu estado de espírito melancólico associando-os de tal modo que faz esbater, misturar o exterior e o interior, sobrepondo imagens caleidoscópicas. Estas imagens tremeluzem, é como se estivéssemos a ver a chuva cair através de um vidro e tudo à nossa frente estivesse desfocado, não fosse possível fixar as imagens com nitidez. Há toda uma música que se desprende das líquidas palavras de Camilo Pessanha, água a correr quase silenciosa, enquanto o tempo passa inexorável e o poeta sonha para fugir à realidade cruel e fria.
Grande poeta simbolista, português e não só.

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